domingo, 4 de janeiro de 2026

Zezinho, o Incêndio, a Chapada do Araripe e a busca por Cidadania



  



Zezinho, o Incêndio, a Chapada do Araripe e a busca por Cidadania.


Céu azul, sol causticante e a ausência total de nuvens. Correm o sitiante e alguns  ajudantes e mergulham no coração da capoeira em chamas.  As labaredas, com as grandes e  trêmulas línguas, a sugarem o capim, a estalarem os garranchos secos e  a tangerem os pequenos animais silvestres, os que rastejam e os que voam pouco. Ajudadas pelos fortes ventos quentes, a baixa humidade do ar e os redemoinhos, juntos, os quatro, consomem sem piedade a caatinga  indefesa, abandonada pelas  águas por mais de dois anos. 

Nos aceiros da capoeira, mulheres e adolescentes, ainda crianças, a limparem e a catarem galhos secos, tão inflamáveis como gasolina, e jovens mais taludos, dentre eles o Zezinho,  a cortarem pelo tronco os arbustos secos, com foices e roçadeiras cegas, a molharem com água barrenta dos barreiros, a dificultarem o avanço do fogo e para  as labaredas não atingirem o outro lado da via  carroçável. Estrada  tal qual as costas do camaleão, duas tiras secas laterais, por onde transitam as rodas do veículo, um capão vegetal, como as cristas do réptil,  a separá-las e a escovarem a barriga do veículo.  Uma cena de horror, calor, fumaças, labaredas, medo, técnica e parcimônia, uma vez que a caatinga, seca e mumificada,  tem a mesma potencialidade de combustão que têm a pólvora e a gasolina. 

Foi assim na Chapada do Araripe em plena seca no verão 63/64, gerando fome, miséria e aumento do êxodo rural, enquanto o Brasil ardia em chamas com o golpe militar.

Sol ardente, temperatura acima dos 40º, arbustos ressequidos, cacos de vidros espalhados entre a seca vegetação e restos de cigarros podem ter sido a causa do incêndio, não descartando o fogo proposital e a união de todos os fatores de risco: Ventos quentes a soprarem sem piedade, redemoinhos a varrerem o solo, a  levantarem ninhos de pássaros com seu  dejetos, ossículos  e penas, capins secos, insetos mortos, peles descartadas pelas cobras, notadamente as cascavéis e os dejetos dos animais da região, todos juntos complementam o cenário propício e atuam como gatilhos para o  fogo. 


No pós-fogo, troncos queimados, galhos secos, como chifres, a furarem o céu azul, fuligens a voarem, como neves pretas, tangidas pelos ventos, animais rasteiros e repteis sapecados, torrados e mortos,  a visibilidade de cem por cento  no miolo da capoeira e de quando em vez a cabeça de um tatupeba a sair do buraco pedindo socorro.


Capoeira quase morta a pedir misericórdia  à natureza e a miragem a tremular tangenciando o solo exaurido de nutrientes, numa demonstração de uma pintura Natureza Morta.

O nordestino serrano roga a Deus e é ouvido. Nas primeiras chuvas, como milagre, o verde renasce com toda as vicissitudes e atrai todos os tipos de animais, que sem leitura sabem se defenderem e livrarem-se destes repetidos e frequentes episódios atribuídos a Deus. Eventos pregados pela natureza e sob a permissão do Criador, por este motivo apelam para os céus e deidades à espera de milagres.

Foi assim em março de 1964, na querida Serra do Araripe, no ano de 1964 e o Zezinho estava lá. Apagou fogo, cortou tronco, salvou pequenos animais, carregou muita água lamacenta dos barreiros, limpou os gravetos dos aceiros, carregou muitas moringas com água para os heróis apagadores e ao mesmo tempo foi gravando na memórias este acontecimento.

Depois de adulto, o Zezinho entendeu o que é um ecossistema, um bioma, uma eleição, a desigualdade social e cultural entre os homens, o poder político, a ciência, o abandono de uma região,  de um povo e o quanto é egoísta a raça humana.  

A Chapada do Araripe e o seu povo continuam lá, mostrando a saga do nordestino e a capacidade de se viver numa área inóspita do globo terrestre. 

Neste torrão nasceram muitos Zezinhos que batalham pela vida em todos os recantos do país. Vivem sem se esquecer das suas profundas,  reconfortantes, fortes e adaptáveis  raízes, dando ao homem da caatinga o epiteto de : "O nordestino é, antes de tudo, um forte", citação icônica de Euclides da Cunha, carioca de Cantagalo, no seu livro "Os Sertões", publicado em 1902 e corroborado por  Graciliano Ramos, alagoano de Quebrangulo, em Vidas Seca, publicado em 1938, quando documenta a saga de uma família, representando as demais da região:  Fabiano, Sinhá Vitória, o Menino Mais Velho e o Menino Mais Novo, além da cachorra Baleia,  um Papagaio, a enganação das miragens, a  corrida contra a sede, a fome  e a busca incansável por  CIDADANIA.

Foi bem assim, que o Zezinho viveu aquele fatídico 18  de março, na querida, misteriosa, abençoada e acolhedora    Chapada do Araripe, divisa do Ceará com Pernambuco no ano de 1964, foi assim. 

    Salvador, 04 de Janeiro  de 2026

 Iderval Reginaldo Tenório


ASA BRANCA DE LUIZ GONZAGA E HUMBERTO TEIXEIRA

COMPOSTA E GRAVADA EM 1947.

UM MARCO DO CANCIONEIRO BRASILEIRO. CONSIDERADA A MAIS IMPORTANTE MÚSICA  BRASILEIRA DE TODOS TEMPOS.

RESULTADO SAIU AGORA NO FIM DE DEZEMBRO DE 2025.


LuizGonzaga Asa Branca - Luiz Gonzaga.
YouTube · Melhores Musicas Gonzaga Music · 10 de set. de 2022

Nenhum comentário: