sábado, 15 de outubro de 2016

JOQUINHA E A PASSADEIRA DO SÃO JUDAS TADEU . DEPOIMENTO.

                                             
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JOQUINHA E  A PASSADEIRA DO SÃO JUDAS TADEU

DEPOIMENTO



Minha mãe ganhava a vida com muitas dificuldades, trouxas e mais trouxas de roupas, geralmente brancas. O quintal da minha casa sempre parecia com a época de São João , camisas e calças brancas como se fossem bandeirolas a cintilarem , a flamularem nos longos e grossos  cordões brancos de algodão ou de nylon .


Eu era muito pequeno, porém,  os meus irmãos mais velhos , dois ou três anos mais do que eu, ficavam a vigiar este grande quintal cercado com arame farpado, não era para coibir  roubos, pois quase que não existiam no nosso bairro e nem naquela época , os amigos do alheio eram raros, raríssimos, parece que o povo tinha mais vergonha, o principal cuidado dos meus irmãos era com os pássaros que vinham beliscar as mangas, as goiabas e os sapotis do pequeno pomar, como também,  lá estavam para espantar os sagüins e os sariguês ou gambás que habitavam as frutíferas árvores,  e que de vez em quando largavam os seus dejetos que manchavam as roupas brancas , que de imediato a minha cuidadosa e limpa mãe lavava outra vez.


As roupas brancas eram de pessoas importantes da cidade, pessoas da sociedade, como falávamos, geralmente a minha mãe  pegava num dia e depois de  limpas, cheirosas , alvas   de arder  nos olhos e muito bem passadas,   as devolvias aos donos aquelas preciosas , delicadas e finas peças dois ou  três dias depois , quando não chovia,  lembro que o capricho maior era com os punhos e com os colarinhos, nestes detalhes a minha mãe era exageradamente exigente .


No dia da entrega, a  Dona Detinha , minha mãe, fazia questão , que eu , o filho mais novo, a acompanhasse, isto porque, enquanto ela lavava num dia , passava nos outros dois e os meus irmãos  vigiavam, ficava eu atento aos livros , lendo, escrevendo, cantando, dançando e  brincando de gente grande, brincando de gente importante, de pessoas da sociedade , ora como médico, ora como industrial e muitas vezes como o prefeito da cidade, nestes momentos sempre falava para a minha mãe, a  lavadeira,  que quando eu crescesse iria ser um cidadão de estudos e de posição, e em vez de lavar as minhas roupas, iria ter condições de pagar  para lavá-las e passá-las, dizia também que , além das roupas brancas iria possuir muitas roupas , paletós e sapatos de todas as cores e de diversos modelos, porém as camisas  na sua grande maioria seriam da cor branca, repetia também para a minha mãe,  que iria lhe presentear com uma confortável e grande casa muito bem mobiliada, com tudo que a mesma quisesse num bairro de primeira, além desta façanha a mesma teria bons, inteligentes e estudiosos netos. 


O segredo para a realização deste sonho estava na escola e isto eu tinha convicção, com estes predicados, todos os patrões  da guerreira matriarca queriam me conhecer, e conheci muitos, todos eram homens importantes e gostavam de minha  prosa, foram eles que atentaram para este meu pensamento. 


Um dos patrões, um senhor mais velho e de cabeça branca, conseguiu uma boa escola para mim como bolsista, acho que a escola era  de um dos seus filhos , outros me presentearam com livros, cadernos, canetas, lápis , uma bolsa de couro nova, tênis de pano , e por conhecer a condição de minha  família providenciaram uma alimentação básica, isto até os 17 anos , uma vez que ao completar  18 ,  não mais aceitei as ajudas, pois já me considerava um adulto e é muito feio , desonesto e vergonhoso um adulto ser sustentado por outro, nem mesmo pelos seus pais, salvo por tradição familiar e se possuir uma boa condição financeira, nesta época consegui  um emprego no escritório do pai do dono da escola, um grande advogado e  passei a conviver com grandes homens , alguns empresários, médicos, engenheiros e professores, aquilo atiçou a minha mente e dei prosseguimento aos estudos. 


Hoje a minha mãe  está com 70anos de idade, mora na sua bela e confortável casa própria, muito bem mobiliada e num bairro onde moram os seus antigos patrões, hoje muitos lhe chamam  de comadre. 


A dedicada Detinha  não cansa de ajudar os sobrinhos, os vizinhos do antigo bairro e os seus netos, quase todos cursando ou no rol da Universidade. 


A minha esposa  trabalha num grande hospital e no seu consultório, tem uma bela e fiel clientela oftalmológica, eu sempre faço algumas viagens a trabalho, nesta semana irei apresentar um trabalho numa grande empresa de engenharia que atua na geração de energia, uma vez que o meu projeto foi aprovado e o vencedor de uma licitação honesta num país da Europa para a implantação de um novo sistema de produção de energia limpa, energia eólica.


 Peço a minha bênção a minha mãe e deixo um recado para os mais jovens de qualquer nível social:  Força de vontade, coragem, perseverança, respeito, juízo e muito trabalho são  os únicos caminhos e a batuta para os que querem vencer na vida com ética e cidadania.


Deixo um forte abraço , com muito carinho e esperança para todos os amigos. 


Do amigo Joaquim, que quando criança,  era chamado de : Joquinha de dona Detinha,  a lavadeira do bairro São Judas Tadeu.  


A todos muita sorte nos estudos e relembro:

 Para o pobre só existe um  caminho, a Escola,  isto para que não fique na mente de cada um, que filho de gato tem que ser gatinho, na raça humana é diferente,  quem manda é o cérebro e este depende de cada um, principalmente do seu proprietário, mesmo sabendo que tem uma casta dominante que vaticina em voz alta: FILHO DE GATO,  GATINHO É.


Joaquim de dona Detinha


Salvador, 15 de Outubro de 2016


Iderval Reginaldo Tenório


FOTOGRAFIA 3 X 4 - BELCHIOR - YouTube

https://www.youtube.com/watch?v=UyYH1biSlBY
11 de jun de 2010 - Vídeo enviado por vangodias
ALUCINAÇÃO (1976) PHILIPS/PHONOGRAM - O SEGUNDO E MELHOR ALBUM DE BELCHIOR.


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