sábado, 21 de abril de 2018

POSSE DA NOVA DIRETORIA DO COLEGIO BRASILEIRO DE CIRURGIA CAPITULO BAHIA






A imagem pode conter: 6 pessoas, incluindo André Gusmão Cunha e Iderval Tenorio, pessoas sorrindo, pessoas em pé e terno
A imagem pode conter: 3 pessoas, incluindo André Gusmão Cunha, pessoas sorrindo, pessoas em pé
                               MESTRA DRA ANA ROMEO E O MESTRE DR ANDRÉ GUSMÃO CUNHA
A imagem pode conter: uma ou mais pessoas, pessoas em pé e área interna

                                                                                         
                                                                                         
                                                                          

Prezados convidados,
Quero agradecer enormemente a presença de todos aqui nesta noite, quando, juntos, celebramos um modo de viver... o modo de vida do cirurgião...

Ao longo da história o cirurgião tem sido um personagem importante... sempre necessário... nem sempre querido... mas sempre disponível aos chamados daqueles que, em dificuldade, clamam por ajuda, por apoio, por decisão, por pragmatismo, por atitude... e muitas vezes encontram tudo isso na figura, no amparo, ou até mesmo na lâmina do bisturi do cirurgião...

Hoje sabemos que o pai da medicina ocidental, Hipócrates, foi muito influenciado por uma medicina ainda mais antiga do que a grega... a medicina egípcia... o primeiro tratado escrito da medicina, o papiro de Edwin Smith, com data estimada em 1500 anos antes de Cristo, é na verdade um tratado de cirurgia traumática, um compilado de 48 casos, em sua maioria ferimentos de guerra... e não é à toa que Hipócrates sabiamente nos legou esta máxima: “a guerra é a melhor escola do cirurgião”... 

E assim fomos e continuamos a ser personagens importantes em momentos difíceis vivenciados pela humanidade... nem sempre queridos... mas sempre necessários... e sempre disponíveis.


Enquanto a medicina se desenvolvia em escolas, a arte cirúrgica foi passada adiante, ao longo da história ocidental, por cirurgiões barbeiros a seus aprendizes... por vezes sem o conhecimento adequado... mas com a prática e a experiência do dia a dia exigidas para a solução de problemas múltiplos, frequentes, alguns graves, contudo considerados menos dignos para que médicos deles se ocupassem... e enquanto esses mesmos médicos cuidavam, por vezes sem sucesso, de doenças internas (daí o termo medicina interna), cirurgiões eram os técnicos da medicina externa... 


Gosto muito de filmes... e gosto mais ainda de assistir novamente aqueles que mais me agradaram, que mais me tocaram... a cada vez que os revejo percebo algo que não havia notado antes...

Filmes históricos estão entre meus preferidos...
 Retornando ao filme “Mestre dos Mares”, após a primeira batalha um marinheiro ferido é operado pelo médico de bordo... uma craniotomia descompressiva no convés inferior do navio... enquanto isto uma imensa plateia de marinheiros no convés superior observa a cena, em respeitoso silêncio, quase sem respirar, percebendo estupefata a delicadeza e a firmeza dos movimentos do doutor, até que um marinheiro, sem mais conseguir se conter, comenta com o colega ao lado: “este, sim, é um verdadeiro médico e não apenas um cirurgião...”
Assim, aos poucos, fomos nos tornando “verdadeiros médicos”... nem sempre queridos... mas sempre necessários... sempre disponíveis...
Na mesma época retratada nesse filme, Dom João VI deixou Portugal fugindo da invasão francesa das lusas terras pelas tropas do corso Bonaparte. Chegou ao Brasil nesta cidade do Salvador trazendo sua corte, e, no dia 18 de fevereiro de 1808, fundou a Escola de Cirurgia da Bahia. Assim, nossa escola, a escola de medicina mais antiga do Brasil, a nossa Faculdade de Medicina da Bahia da Universidade Federal da Bahia, nasceu CIRÚRGICA...
Cirúrgica, nossa escola sempre foi necessária... sempre disponível...
E assim foi, nos episódios mais sangrentos ocorridos no Brasil e na Bahia a então Faculdade de Medicina e Pharmacia da Bahia, por solicitação do governo central, monarquista ou republicano, enviou alunos e professores para a Guerra do Paraguai, e alunos para a Guerra de Canudos, quando atuaram incansáveis, tanto no palco de operações, nos chamados Hospitais de Sangue instalados a alguns metros da linha de fogo, onde se dedicavam a imobilizar fraturas e tamponar hemorragias, quanto também em enfermarias em Salvador, no Terreiro de Jesus e no Hospital Santa Izabel. 


Atendiam não apenas aos feridos nas batalhas, mas também lidavam com os diversos males inseparáveis da guerra, como beribéri, disenteria, impaludismos e outras febres (varíola, pneumonia, hepatite, tifo), além de fome e sede e miséria... aplacaram o sofrimento e consolaram perdas... 

inclusive as infelizes vidas ceifadas de jovens e promissores alunos desta faculdade... no ano de 1897, a cerimônia de formatura aconteceu sem festejos devido a morte de 3 alunos na Guerra de Canudos...
Sempre necessários... sempre disponíveis...


No início do século XX, a Bahia precisava de melhores equipamentos de saúde... atuando como professor e diretor da Faculdade de Medicina da Bahia, o cirurgião Edgard Santos, primeiro Mestre deste capítulo do Colégio Brasileiro de Cirurgiões, quem eu tenho o privilégio de pisar em suas pegadas, conseguiu mobilizar junto aos governos federal e estadual recursos para construir dois hospitais , dois eternos ícones de Salvador: o Hospital das Clínicas, mais tarde merecidamente renomeado Hospital Universitário Professor Edgard Santos, e o Hospital Getúlio Vargas. 

Intencionalmente construídos próximos, o professor Edgard Santos sabia o que estava fazendo... o primeiro serviria como um hospital especializado, e o segundo como pronto-socorro deste... 

visionário, Edgard Santos enviou nomes como Tomás Cruz, Heonir Rocha e Álvaro Rabelo para estudar nos melhores serviços especializados nos Estados Unidos e retornar para nossa cidade, para o Hospital das Clínicas...
Durante décadas os dois hospitais funcionaram na mesma calçada... muitos professores da Faculdade de Medicina da Bahia atuavam em ambos...

Quando criança, indo para o Colégio Maristas, passei diversas vezes em frente ao pronto-socorro, como era então conhecido o Hospital Getúlio Vargas... jamais entrei... e jamais entrarei, pois em 1990 sua equipe foi transferida para o bairro de Brotas, onde hoje é o Hospital Geral do Estado, nosso HGE, e o Hospital das Clínicas perdeu seu pronto-socorro... foi um grande baque no que havia planejado tão cirurgicamente Edgard Santos, que ainda fundaria a Universidade da Bahia, hoje Universidade Federal da Bahia...

O HUPES, o HGE e a UFBA nasceram da visão e do trabalho de um cirurgião... nem sempre querido... mas sempre necessário... sempre disponível...

A vida, amigos, é feita de várias coisas... mas uma vida plena é feita também de simbioses... o cirurgião vive uma simbiose muito forte e muito intensa com os hospitais... assim como não há cirurgião sem hospital, não há hospital sem cirurgião...


Por isso, quando um hospital não permite o desenvolvimento e o fortalecimento de sua atividade cirúrgica... quando o hospital sufoca o cirurgião... quando o hospital sucateia seu centro cirúrgico, seu internamento cirúrgico... quando oferece toda sorte de dificuldades ao cirurgião... este hospital simplesmente morre... pois não há hospital sem cirurgião... sempre necessário... sempre disponível...

E é muito triste, doloroso, incompreensível notar que hospitais, que desta maneira insana agem, habitualmente são dirigidos por nossos próprios colegas... médicos.

Da mesma forma, o nascer de uma nova vida muitas vezes requer a cooperação simbiótica de outra vida já constituída... e assim, hospitais quando nascem sempre nascem cirúrgicos...

Este é o nosso estilo de vida... isto é o que somos... cirurgiões... necessários e disponíveis aos chamados de quem precisa de nossa resolução... nosso apoio... nossa ajuda... nosso consolo...

Não é um estilo de vida fácil... também não é simples... e não vem sem grandes renúncias... sem grandes sacrifícios... sem grandes sofrimentos por parte dos cirurgiões...


Nós tomamos burnout no café da manhã... atualmente 50% dos cirurgiões americanos sofrem de síndrome de burnout... nós comemos burnout no almoço... nós jantamos burnout em casa, mas apesar disto 90% dos cirurgiões com burnout escolheriam ser cirurgiões novamente... contudo, pasmem amigos e por favor reflitam, 90% dos cirurgiões com burnout não gostariam que seus filhos se tornassem cirurgiões...

Nós vencemos o burnout... somos cirurgiões e estamos acostumados a grandes batalhas... e como tal somos também nadadores, remadores, corredores, dançarinos, pintores, músicos, cozinheiros, tenistas... jogamos futebol, vôlei, pólo aquático... ou montamos modelos de aviões e navios durante as madrugadas... ou simplesmente lemos um bom livro... ou nos reunimos para discussões clínicas, boas conversas entre amigos, com boa comida, bom vinho e boa companhia... 


Aproveito para pedir desculpas a minha família... acho que arranjei coisas demais para fazer! Disse à Andréa, minha esposa, que este ano eu não iria conseguir equilibrar tudo... e realmente não consegui... a Influenza me derrubou 15 dias atrás... mas eu voltei... e não caio nessa de novo...

Só existe um trabalho pior do que ser André Gusmão... é suportar André Gusmão... e nisso minha família, a quem tudo devo, é mestre... muito, muito obrigado mesmo!...

Eu gostaria também de apresentar aqueles que, juntamente comigo, seremos responsáveis pelo Capítulo da Bahia do Colégio Brasileiro de Cirurgiões... responsáveis sim... pois já recebi do nosso presidente, Dr. Savino Gasparini, a procuração que nos dá essa responsabilidade...

Ana Celia Diniz Cabral Barbosa Romeo... minha vice-mestre... como toda cirurgiã, melhor do que qualquer cirurgião... afinal as mulheres são mais delicadas... mais ternas... mas também mais rigorosas... e mais rígidas... o companheirismo profissional que desenvolvi com Ana me dá muito orgulho, pois eu, que já conhecia seus predicados cirúrgicos, passei também a conhecer e a reconhecer seus predicados de gestora... juntos apresentamos diversos trabalhos com nossos alunos, internos e residentes... 

ganhamos prêmios... publicamos em revista internacional... mas nada disso é maior em Ana do que o fato dela ser esposa do meu queridíssimo amigo romano André Barbosa Romeo, que já foi mestre deste capítulo, outro que tenho o privilégio de pisar as pegadas, e cujo discurso de despedida de sua gestão me marcou enormemente... Ana, muito obrigado por aceitar mais esta missão... você é ONA 3... 

Luiz Vianna de Oliveira, meu primeiro secretário, grande amigo desde a diretoria passada deste capítulo, entusiasta por natureza... com ele tudo parece possível...

Pedro Carlos Muniz de Figueiredo, meu segundo secretário... se algum cirurgião não for disponível suficiente é porque Pedro é disponível demais... com ele não há tempo ruim...

Marcus de Almeida Correia Lima, meu primeiro tesoureiro... eu só aceitei ser mestre porque você aceitou ser meu tesoureiro, posto da mais alta confiança e eu tenho a mais completa em você...

Augusto Jesuíno Lacerda Santos, meu segundo tesoureiro e colega de hospital... escolha pessoal de Dr. Marcus, prontamente acolhida... Jesú, como carinhosamente o chamamos, e sua família têm o CBC no sangue...

Sílvio Prisco Vilasbôas Filho... nosso Depro... Sílvio tem uma das mais importantes missões dentro desta diretoria que é a de buscar a defesa profissional dos cirurgiões em nosso estado...

E por fim, nosso vice-presidente do Setor IV, Professor Izio Kowes, que viveu o CBC com uma vontade e entusiasmo de uma criança na gestão passada, contagiando a todos nós, é o atual presidente do nosso congresso, que se realizará em setembro aqui em Salvador, e é o responsável por este período de renovação que o Capítulo da Bahia está passando...

Muito obrigado a todos por depositar em mim a confiança para liderar esta diretoria...

Antes de encerrar, gostaria de anunciar que, mesmo que nossa diretoria seja destituída amanhã, ela já logrou seu maior êxito na noite de hoje... hoje finalmente nosso amigo Marcus Lima se tornou Titular do CBC... e recebemos 11 novos membros em nosso colégio, dentre eles nosso mais que querido amigo, Márcio Rivison... um feito que nenhuma diretoria havia conseguido até então...

Agradeço mais uma vez a todos por prestigiarem a posse desta diretoria, e dizer que podem contar com o Colégio Brasileiro de Cirurgiões... podem contar com os cirurgiões... estaremos lá... para curar e confortar... para ajudar... para consolar... para chorar... seremos sempre necessários e sempre disponíveis...

Muito obrigado!

André Gusmão Cunha  
Bienio 2018/2019
Presidente

Nenhum comentário: