Marina Silva (PSB) declara apoio a Aécio Neves - Marcos Alves /
Agência O Globo
RIO - Derrotada no primeiro turno da eleição presidencial, Marina Silva (PSB) leu na manhã deste domingo um texto no qual confirmou seu apoio a Aécio Neves (PSDB) no segundo turno.
Leia a íntegra:
“Ontem, em Recife, o candidato Aécio Neves apresentou o documento
“Juntos pela Democracia, pela Inclusão Social e pelo Desenvolvimento
Sustentável”.
Quero, de início, deixar claro que entendo esse documento como uma carta
compromisso com os brasileiros, com a nação. Rejeito qualquer interpretação de
que seja dirigida a mim, em busca de apoio. Seria um amesquinhamento dos
propósitos manifestados por Aécio imaginar que eles se dirigem a uma pessoa e não
aos cidadãos e cidadãs brasileiros. E seria um equívoco absoluto e uma ofensa
imaginar que me tomo por detentora de poderes que são do povo ou que poderia
vir a ser individualmente destinatária de promessas ou compromissos. Os
compromissos explicitados e assinados por Aécio tem como única destinatária a
nação e a ela deve ser dada satisfação sobre seu cumprimento. E é apenas nessa
condição que os avaliei para orientar minha posição neste segundo turno das
eleições presidenciais.
Estamos vivendo nestas eleições uma experiência intensa dos desafios da
política. Para mim eles começaram há um ano, quando fiz com Eduardo Campos a
aliança que nos trouxe até aqui. Pela primeira vez, a coligação de partidos se
dava exclusivamente por meio de um programa, colocando as soluções para o país
acima dos interesses específicos de cada um.
Em curto espaço de tempo, e sofrendo os ataques destrutivos de uma
política patrimonialista, atrasada e movida por projetos de poder pelo poder,
mantivemos nosso rumo, amadurecemos, fizemos a nova política na prática.
Os partidos de nossa aliança tomaram suas decisões e as anunciaram. Hoje
estou diante de minha decisão como cidadã e como parte do debate que está
estabelecido na sociedade brasileira. Me posicionarei.
Prefiro ser criticada lutando por aquilo que acredito ser o melhor para
o Brasil, do que me tornar prisioneira do labirinto da defesa do meu interesse
próprio, onde todos os caminhos e portas que percorresse e passasse, só me
levariam ao abismo de meus interesses pessoais.
A política para mim não pode ser apenas, como diz Bauman, a arte de
prometer as mesmas coisas.
Parodiando-o, eu digo que não pode ser a arte de fazer as mesmas coisas.
Ou seja, as velhas alianças pragmáticas, desqualificadas, sem o suporte
de um programa a partir do qual dialogar com a nação.
Vejo no documento assinado por Aécio mais um elo no encadeamento de
momentos históricos que fizeram bem ao Brasil e construíram a plataforma sobre
a qual nos erguemos nas últimas décadas.
Ao final da presidência de Fernando Henrique Cardoso, a sociedade
brasileira demonstrou que queria a alternância de poder, mas não a perda da
estabilidade econômica.
E isso foi inequivocamente acatado pelo então candidato da oposição,
Lula, num reconhecimento do mérito de seu antecessor e de que precisaria dessas
conquistas para levar adiante o seu projeto de governo.
Agora, novamente, temos um momento em que a alternância de poder fará
bem ao Brasil, e o que precisa ser reafirmado é o caminho dos avanços sociais,
mas com gestão competente do Estado e com estabilidade econômica, agora abalada
com a volta da inflação e a insegurança trazida pelo desmantelamento de
importantes instituições públicas.
Aécio retoma o fio da meada virtuoso e corretamente manifesta-se na
forma de um compromisso forte, a exemplo de Lula em 2002, que assumiu
compromissos com a manutenção do Plano Real, abrindo diálogo com os setores
produtivos.
Doze anos depois, temos um passo adiante, uma segunda carta aos
brasileiros, intitulada: “Juntos pela democracia, a inclusão social e o
desenvolvimento sustentável”.
Destaco os compromissos que me parecem cruciais na carta de Aécio:
- O respeito aos valores democráticos, a ampliação dos espaços de
exercício da democracia e o resgate das instituições de Estado.
- A valorização da diversidade sociocultural brasileira e o combate a
toda forma de discriminação.
- A reforma política, a começar pelo fim da reeleição para cargos
executivos, que tem sido fonte de corrupção e mau uso das instituições de
Estado.
- Sermos capazes de entender que, no mundo atual, a ampliação da
participação popular no processo deliberativo, através da utilização das redes
sociais, de conselhos e das audiências públicas sobre temas importantes, não se
choca com os princípios da democracia representativa, que têm que ser
preservados.
- Compromissos sociais avançados com a Educação, a Saúde, a Reforma
Agrária.
- Prevenção frente a vulnerabilidade da juventude, rejeitando a
prevalência da ótica da punição.
- Lei para o Bolsa Família, transformando-o em programa de Estado
- Compromissos socioambientais de desmatamento zero, políticas corretas
de Unidades de Conservação, trato adequado da questão energética, com
diversificação de fontes e geração distribuída.
- Inédita determinação de preparar o país para enfrentar as mudanças
climáticas e fazer a transição para uma economia de baixo carbono, assumindo
protagonismo global nessa área.
- Manutenção das conquistas e compromisso de assegurar os direitos
indígenas, de comunidades quilombolas e outras populações tradicionais.
Manutenção da prerrogativa do Poder Executivo na demarcação de Terras indígenas
- Compromissos com as bases constitucionais da federação, fortalecendo
estados e municípios e colocando o desenvolvimento regional como eixo central
da discussão do Pacto Federativo.
Finalmente, destaco e apoio o apelo à união do Brasil e à busca de
consenso para construir uma sociedade mais justa, democrática, decente e
sustentável.
Entendo que os compromissos assumidos por Aécio são a base sobre a qual
o pais pode dialogar de maneira saudável sobre seu presente e seu futuro.
É preciso, e faço um apelo enfático nesse sentido, que saiamos do
território da política destrutiva para conseguir ver com clareza os temas
estratégicos para o desenvolvimento do país e com tranqüilidade para debatê-los
tendo como horizonte o bem comum.
Não podemos mais continuar apostando no ódio, na calúnia e na
desconstrução de pessoas e propostas apenas pela disputa de poder que dividem o
Brasil.
O preço a pagar por isso é muito caro: é a estagnação do Brasil, com a
retirada da ética das relações políticas.
É a substituição da diversidade pelo estigma, é a substituição da
identidade nacional pela identidade partidária raivosa e vingativa.
É ferir de morte a democracia.
Chegou o momento de interromper esse caminho suicida e apostar, mais uma
vez, na alternância de poder sob a batuta da sociedade, dos interesses do pais
e do bem comum.
É com esse sentimento que, tendo em vista os compromissos assumidos por
Aécio Neves, declaro meu voto e meu apoio neste segundo turno.
Votarei em Aécio e o apoiarei, votando nesses compromissos, dando um
crédito de confiança à sinceridade de propósitos do candidato e de seu partido
e, principalmente, entregando à sociedade brasileira a tarefa de exigir que
sejam cumpridos.
Faço esta declaração como cidadã brasileira independente que continuará
livre e coerentemente, suas lutas e batalhas no caminho que escolheu.
Não estou com isso fazendo nenhum acordo ou aliança para governar.
O que me move é minha consciência e assumo a responsabilidade pelas
minhas escolhas”.
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