Como entender o mundo atual, como enxergar cada cidadão e como afastar os preconceitos pertinentes a tão complexa e antiga demanda social.
Todos os seres humanos são humanos.
Merecem respeito na condução da vida.
Um civilização moderna não cabe nenhum tipo de preconceito.
Iderval Reginaldo Tenório
Da obra de Adriana Piscitelli: Gênero: a história de um conceito in: Heloísa
Buarque de Almeida; José Szwako: Diferenças, igualdade, São Paulo,
Berlendis e Vertecchia Editores, pp. 116- 150.
POR QUE FALAR SOBRE GÊNERO?
A TRAJETÓRIA DE UM CONCEITO
"O conceito de gênero foi elaborado e reformulado em momentos específicos da história das teorias sociais sobre a "diferença sexual" e foi
inovador em diversos sentidos.
Para perceber o alcance dessas inovações, é preciso acompanhar um
pouco de sua história. Ao marrá-la, a bióloga e historiadora da ciência Donna Haraway,
no artigo Gênero para um dicionário marxista, afirma que o termo gênero foi introduzido
pelo psicanalista estadunidense Robert Stoller no Congresso Psicanalítico
Internacional em Estocolmo, em 1963, tratando do modelo da identidade de gênero.
Stoller teria formulado o conceito de identidade de gênero no contexto da distinção entre
natureza e cultura. Assim, sexo está vinculado à biologia (hormônios, genes, sistema
nervoso e morfologia) e gênero tem relação com a cultura (psicologia, sociologia,
incluindo aqui todo o aprendizado vivido desde o nascimento).
O produto do trabalho da cultura
sobre a biologia era a pessoa marcada por gênero, um homem ou uma mulher. Ou seja, este psicanalista, acompanhando uma reflexão científica mais ampla, entendia que quando nascemos somos classificados pelo nosso corpo, de acordo
com os órgãos genitais, como menina ou menino. Mas, as maneiras de ser homem ou mulher não derivam desses genitais, mas de aprendizados que são culturais, que variam segundo o momento histórico, o lugar, a classe social.
Ser mulher de classe
alta no Brasil, no início de século XX pressupunha ser delicada, ficar restrita ao
espaço doméstico, ter pouca educação formal, saber bordar e costurar. E as mulheres
eram ensinadas a se enquadrar nesse modelo. Hoje em dia, ser mulher pode significar
algo bem diferente, e varia muito de acordo com o lugar, a classe social, o momento histórico.
HARAWAY, Donna:
Gênero para um dicionário marxista, a política sexual de uma
palavra.
Cadernos PAGU, no.22 Campinas Jan./June 2004,
Na opinião de Stoller, há uma diferença sexual “natural”, no corpo fisiológico. Embora o sentido que isso assume em diferentes contextos seja muito variado, em
cada lugar se estabelecem maneiras apropriadas de ser homem e mulher. Às vezes,
algumas pessoas nascem com traços genitais de um sexo, mas sua “identidade de gênero”
está associada ao outro sexo. Por exemplo, pessoas que nasceram com pênis, mas se
sentem como meninas, gostam de vestir-se e de comportarem-se como elas.
Há também
pessoas que nasceram tendo parcial ou completamente desenvolvidos órgãos sexuais
masculinos e femininos. No passado eram denominados de hermafroditas, hoje recebem o nome
de pessoas de sexo ambíguo ou “intersexos”. Nesses casos, os médicos tendem a
sugerir intervenções cirúrgicas, às vezes mutilações, para definir os órgãos genitais,
retirando qualquer ambigüidade deles e trabalhos terapêuticos que permitam harmonizar a identidade de gênero com os novos genitais. Stoller afirmava que esse conjunto
de possibilidades existe porque a “identidade de gênero”, que está no plano da
cultura, dos hábitos e dos aprendizados, não deriva dos genitais, que “pertencem” à
natureza, à biologia. Por isso, é preciso separar natureza de cultura, entendendo que o
que define as diferenças de gênero está no lugar da cultura.
As formulações de gênero que tiveram impacto na teoria social, porém, foram elaboradas a partir do pensamento feminista, na década de 1970. Esse movimento social, que buscava para as mulheres os mesmos direitos dos homens, atuou decisivamente na formulação do conceito de gênero.
As feministas utilizaram a
ideias de gênero como diferença produzida na cultura, mas uniram a essa noção a
preocupação pelas situações de desigualdade vividas pelas mulheres, como aquelas
mencionadas acima.
Foi portanto a partir de uma luta social, que surgiu uma contribuição
teórica fundamental para o pensamento social. Nessa elaboração, articularam-se, de
novas maneiras, aspectos presentes na longa história de reivindicações feministas,
relativos à dominação masculina, e noções teóricas sobre como as distinções entre feminino
e masculino fazem parte do social.
O cerne da dominação masculina
Nas décadas de 1950 e 1960, os grupos feministas continuavam lutando pela
igualdade de direitos. Mas em 1949 havia sido publicado um livro inteiramente
inovador, O segundo sexo, que contestava o efeito dessas lutas para eliminar a
dominação masculina. O livro foi escrito por Simone de Beauvoir, filósofa e escritora
francesa, convencida de que para eliminar essa dominação era necessário muito mais do
que reformas nas leis, garantindo, por exemplo, o direito das mulheres ao voto. Ela
considerava que o verdadeiramente importante era enfrentar os aspectos sociais que
situavam a mulher em um lugar inferior. A autora afirmava que retirar as mulheres
desse lugar só seria possível combatendo o conjunto de elementos que impediam que
elas fossem realmente autônomas: a educação que preparava as meninas para agradar
os homens, para o casamento e a maternidade; o caráter opressivo do casamento para as
mulheres, uma vez que no lugar de ser realizado por verdadeiro amor era uma obrigação
para ter proteção e um lugar na sociedade; o fato de que a maternidade não fosse livre,
no sentido de que não existia um controle adequado da fertilidade que permitisse às
mulheres escolherem se desejavam ser mães; a vigência de um duplo padrão de
moralidade sexual, isto é, de normas diferenciadas que permitiam muito maior liberdade
sexual aos homens e, finalmente, a falta de trabalhos e profissões dignas e bem
remuneradas que permitissem às mulheres ter real independência econômica. De
acordo com Sylvie Chaperon, historiadora que analisou a trajetória da autora, a a
discrepância de Simone de Beauvoir com o feminismo da época, que privilegiava as
reformas nas leis, fez com que essa autora só passasse a considerar-se feminista mais
tarde, na década de 1960, quando as interrogações sobre o casal e o amor já tinham se
difundido entre as feministas.
Os argumentos formulados em O segundo sexo estão ancorados em uma leitura crítica da história, da psicanálise e da literatura.
Paralelamente, a autora considera as experiências femininas da época, analisando de maneira incisiva a maternidade e a conformação das identidades sexuais, dedicando capítulos à iniciação sexual feminina, ao drama da vida da mulher casada, à lésbica, à prostituta. Esses aspectos provocaram as reações contrárias mais fortes na época de publicação do livro, tanto por setores católicos, como pelas correntes de pensamento de esquerda.
Simone de Beauvoir não utiliza o termo papéis sexuais. Entretanto, incorpora ideias presentes nessa noção, no que se refere a considerar que a posição da mulher é uma construção social. Contudo, essa leitura é feita, diferentemente da realizada por Margareth Mead, a partir da preocupação com a dominação masculina. Para Beauvoir, essa dominação não se explicaria por aspectos inerentes ao corpo feminino, nem à natureza.
A resposta estaria na compreensão do que a história e a cultura fizeram, nos termos da autora, da fêmea humana. Esse pensamento deu lugar a uma das frases mais citadas pelas feministas em diferentes momentos:
O segundo sexo
“Ninguém nasce mulher: torna-se mulher. Nenhum destino biológico,psíquico, econômico define a forma que a fêmea humana assume no seio dasociedade; é o conjunto da civilização que elabora esse produto.”
Simone de Beauvoir
Mulher e patriarcado
O segundo sexo é considerado precursor do feminismo da “segunda onda” do feminismo, protagonizado por grupos organizados de mulheres, em diversas partes domundo, a partir da década de 1960. Várias das ideias presentes nesse livro serão retomadas por vertentes que, embora diversas, compartilham algumas concepções centrais. Em termos políticos, consideram que as mulheres ocupam lugares sociais subordinados em relação aos homens. A subordinação feminina é pensada como algo que varia em função da época histórica e do lugar do mundo que se estude. No entanto, ela é pensada como universal, na medida em que parece ocorrer em todas as partes e em todos os períodos históricos conhecidos.
Essas abordagens questionam o suposto caráter natural dessa subordinação, sustentando, ao contrário, que ela é decorrente das maneiras como a mulher é construídasocialmente. Isto é fundamental, pois a ideia subjacente é a de que o que é construído,ao não ser natural, inato, fixo, pode ser modificado.
Portanto, alterando-se as maneiras como as mulheres são percebidas, seria possível mudar o espaço social por elas ocupado. Por esse motivo, o pensamento feminista da segunda onda colocou reivindicações voltadas para a igualdade no exercício dos direitos, questionando, ao mesmo tempo, as raízes culturais destas desigualdades.
As feministas trabalharam em várias frentes: criaram um sujeito político coletivo, as mulheres, e tentaram viabilizar estratégias para acabar com a sua subordinação. Ao mesmo tempo, procuraram ferramentas teóricas para explicar as causas originais dessa subordinação e trabalharam recorrentemente, com uma série de categorias e conceitos fundamentais, principalmente, : mulher, opressão e patriarcado.
A categoria "mulher", com conotações presentes no livro de Simone de Beauvoir, foi desenvolvida pelo feminismo da segunda onda em leituras segundo as quais, a opressão das mulheres está além de questões de classe e raça, atingindo todas as mulheres, inclusive as mulheres das classes altas e brancas. Essa ideia foi útil, em termos políticos, para desenvolver o próprio conceito de feminismo, diferenciando-o, no contexto específico das discussões que tinham lugar nos Estados Unidos e na Inglaterra,do "pensamento de esquerda".
O reconhecimento político das mulheres como coletividade ancora-se na ideia de que o que une as mulheres ultrapassa em muito as diferenças entre elas. Isso criava uma "identidade" entre elas. A base para essa identidade inclui traços biológicos e, também, aspectos sociais, efeitos da dominação masculina.
A opressão patriarcal, estabelecendo uma conexão entre todas as mulheres, através do tempo e das cultura. As feministas afirmaram que todas as mulheres sofriam opressão. Essa afirmação era justificada ao se definir de maneira particular a opressão.
Segundo elas, era necessário prestar atenção às experiências femininas: a opressão incluiria tudo o que as mulheres “experienciassem” como opressivo. Ao definir o político de tal maneira que acomodasse essa concepção de opressão, toda atividade que perpetuasse a dominação masculina passou a ser considerada como política. Nesse sentido, a política passava a envolver qualquer relação de poder, independentemente deestar ou não relacionada com a esfera pública.
Considerando que as mulheres eram oprimidas enquanto mulheres e que suas experiências eram prova de sua opressão, chegou-se à conclusão de que a opressão feminina devia ser mapeada no espaço em que as mulheres a viviam, isto é, nas suas vidas cotidianas, no lar, nas relações amorosas, no âmbito da família.
A conhecida ideia "o pessoal é político" foi implementada para mapear um sistema de dominação atuante no nível da relação mais íntima de cada homem com cada mulher.
Esses relacionamentos eram considerados, sobretudo, políticos, na medida em que “político” é
essencialmente definido como o que envolve uma relação de poder."
Iderval Reginaldo Tenório
Escutem com a Wanessa da Mata, do Chico Cesar, paraibano de Catolé do Rocha, na Paraíba, nascido no dia 26 de janeiro de 1964 .
A Força Que Nunca Seca
Música do álbum "Vanessa da Mata" lançado pela Sony Music. Baixe no iTunes: http://smarturl.it/vanessadamataalbum.
YouTube · Vanessa da Mata · 26 de jul. de 2015