A Asa Branca em quatro etapas
Gonzaga, Humberto Teixeira, Zé Dantas, João
Silva e Marcolino.
PARTE
I- 1947.
A ARRIBADA
HUMBERTO TEIXEIRA E LUIZ GONZAGA
O Nordeste Brasileiro, esquecido e
vilipendiado por mais de quatro séculos, guarda
segredos culturais, humanos e riquezas para o mundo.
Caatinga escaldada, desidratada, queimada pelo causticante sol, sacudido pelas
lufadas dos ventos quentes e que reflete os raios solares como miragens,
mimetizando espelhos de lagoas e tendo o céu azul cristalino como teto.
Bioma documentado por Raquel de Queiroz, em o Quinze e Graciliano Ramos, em Vidas Secas.
Ecossistema que guarda mistérios, como reverberaram o carioca Luiz Carlos Pereira de Sá, o Sá, e o baiano, da cidade de Barra, Guttemberg Nery Guarabyra Filho, o Guarabyra, em 1977, no clássico, O Sertão Vai Virar Mar, vaticinado pelo cearense de Quixeramobim, Antônio Conselheiro, líder da Guerra de Canudos, que aconteceu de 1896 a 1897, na Bahia, estraçalhada pelo Exercito Brasileiro no governo de Prudente de Moraes.
Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, os genitores do baião, fizeram parceria para documentar o Nordeste.
Queriam um
símbolo fidedigno, que representasse a alma de um povo sofrido, e que o
orientasse na seca, fome, cheias e farturas.
Estavam comprometidos e jurados, pelo destino, a compor uma obra
musical irretocável.
Pensaram qual seria a figura viva nordestina, que poderia ser o seu símbolo e quais os acordes a serem entoados.
Não foi difícil para os dois gênios. Num estalo celestial, o predestinado pernambucano da Serra do Araripe, da cidade do Exu, Luiz Gonzaga, explanou para o experiente advogado, o cearense de Iguatu, Humberto Teixeira.
Assim se manifestou o iluminado sanfoneiro, filho de Santana e Januário, aquele que tirou o Nordeste da invisibilade.
" Dos seres vivos, da fauna nordestina, é o pássaro ASA BRANCA, o animal que prevê e foge da seca, e sabe quando ela terminará.
Foge do sertão nas épocas do estio e volta nas grandes aguadas. Foge da fome, do tédio e da tristeza, retorna nas chuvas, na alegria e na fartura, é o maior orientador deste povo".
Foi prontamente aceito, e com os olhos a marejarem, se
abraçaram.
Ao mesmo tempo, Humberto matutava o outro tema, os acordes, a melodia. Fechou os olhos, apurou o cérebro, foi fundo, puxou pela mente e falou para o predestinado.
"Existe uma música folclórica, de
domínio popular, cantada há mais de 200 anos e que a melodia
continua viva na memória do povo, e é transmitida de geração em
geração".
Cantarolou, de boca fechada, o gemido
encravado na mente, e lá do fundo, guturalmente, veio brotando e aflorando com toda a força da natureza, a melodia regional, plantada e replantada de geração em geração, e que, recuperada e com refinamentos nos acordes, seria plantada em solo fértil para toda a nação.
O Luiz cerrou os olhos e viajou no tempo. Foi fundo na memória, resgatou da seca de 1918, quando estava com 06 anos de idade, os episódios hibernados na mente, quando saboreava mingau da massa da mucunã, reforçada com massa do jatobá para saciar a fome.
O abraço foi
reforçado e os lenços insuficientes para enxugarem as lágrimas dos dois
sobreviventes, genuínas Asas Brancas.
A ASA BRANCA foi oficializada, como a
representante do nordeste e a centenária melodia, o seu lamento. Juntos, criaram a música Asa Branca, considerada a alma e o hino do Nordeste.
Em pleno ano de sofrimento e dificuldades, 1947, Luiz
Gonzaga e Humberto Teixeira, autores de Baião, Juazeiro, Respeita Januário e Meu
Pé de Serra conseguiram documentar o êxodo do
Nordestino para o Sul, utilizando como símbolo a Asa Branca e as
suas propriedades meteorológicas.
Foram ao âmago de cada um, e aos prantos, documentaram com fidedignidade um povo, com a pérola ASA BRANCA.
Ali nascia um mistério real, mostrando
para a eternidade o sofrimento, o labutar, a coragem e o quanto é
forte o homem do Nordeste brasileiro.
PARTE
II -1950- O RETORNO
A VOLTA DA ASA BRANCA
JOSÉ DANTAS E LUIZ GONZAGA
O tempo passou, as chuvas voltaram, o capim e as babujas
renasceram, os pássaros cantaram, os sapos e as rãs coaxaram, e a
Asa Branca ouvindo o ronco do trovão, retornou ao seu lar, numa salva de
alegrias, bucho cheio, água em abundância e muita esperança.
Com este cenário, o médico pernambucano, de Carnaíba e
dos sertões do Pajeú, José Dantas, autor de Xote das Meninas, Acauã,
Sabiá, Riacho do Navio, Samarica Parteira e Vozes da Seca
escrevinhou A VOLTA DA ASA BRANCA.
Tudo verde, tudo belo e muita fartura na Chapada do
Araripe, da Borborema, nos sertões do Pajeú, do Seridó, no
Cariri Cearense, no Cariri Paraibano e em todos os recantos nordestinos.
Isto foi em 1950, para 02 anos depois, a
Asa Branca anunciar mais um período de seca, mais um
período para esturricar o sertão e iniciar mais um êxodo
à procura do DICOMÊ.
Sabe o sertanejo, que um ano de seca, consome dez
anos de fartura, está aí a segunda fase do Rei Luiz a cantar o seu sofrido povo
e a sua esturricada terra.
PARTE III-
1983- O PROJETO ASA BRANCA
A IRRIGAÇÃO, A ÁGUA PARA O
NORDESTE.
JOSÉ MARCOLINO E LUIZ GONZAGA
Em 1978, indicado pelo Presidente Ernesto Geisel, o
Dr. Marcos Maciel conduziu o Estado de
Pernambuco, como governador biônico. Este prometeu ao Luiz Gonzaga,
água para o povo sofrido da Chapada do Araripe e criou o Projeto Asa
Branca.
Para homenagear e documentar o fato, o
Luiz, junto ao paraibano de Várzea Paraíba, distrito de São
Tomé, hoje município de Sumé, José Marcolino Alves, autor de
Numa Sala de Rebôco, Cacimba Nova, Quero Chá, Cantiga do Vem-vem e Pássaro Carão lançaram
em 1983 a música PROJETO ASA BRANCA.
PARTE IV. 1984 -A RODOVIA
ASA BRANCA
UMA ESTRADA ASFALTADA PARA O EXÚ, BODOCÓ E OS SEUS
SERTÕES.
JOÃO SILVA E LUIZ GONZAGA
João Silva, pernambucano de Arcoverde, autor
de Nem se despediu de mim, Tá Danado de Bom, Pagode Russo, De fiá
Pavi e Viva meu Padim, o maior parceiro do Luiz da era
moderna, o período pós êxodo.
O João que vivia ao lado do rei, como vivia
o Dominguinhos, resolveu, junto ao Rei, documentar a chegada do
asfalto na terra de seu Luiz.
Dos anos de 1984 a 1986, o Governador do Ceará, LUIZ GONZAGA DA FONSECA MOTA e
o Governador de Pernambuco, Roberto Magalhães
Melo resolveram pagar uma dívida ao maior símbolo musical do
Nordeste.
Para este intento decidiram asfaltar o trecho que
vai da Cidade do Crato, no Ceará, ao Exu em Pernambuco, mais
de 80 quilômetros, cortando a Chapada do Araripe, hoje patrimônio da
humanidade.
A esta estrada deram o nome- RODOVIA ASA BRANCA e
coube a João Silva compor a música Rodovia Asa Branca, imortalizada na voz mais
nordestina dos nordestinos, o filho de seu Januário e de dona Santana, Luiz
Gonzaga do Nascimento.
Estes episódios mostram, que a arte é
uma das melhores maneiras de documentação desde os primórdios do mundo. É
de alvitre saber que foram os cordelistas, os repentistas e os pequenos
escritores que documentaram mais de mil anos da história da humanidade. Vide o
cangaço, o Padre Cícero, as grandes batalhas e os diversos fatos que hoje são
resgatados com precisão, no Brasil e no mundo.
Conheça o Rodolfo Coelho Cavalcante, Otacílio Batista, Geraldo Amâncio,
Patativa do Assaré, Pedro Bandeira de Caldas, Bule
Bule, Ivanildo Vila Nova e outros monstros do
repente, pulverizados em todo o Nordeste.
Luiz Gonzaga foi o maior documentador e documentarista
dos fatos brasileiros. O Brasil está retratado nas suas obras. Cada
episódio, cada povo, cidades, amigos e costumes estão pinçados
e reverberados na mais equilibrada e suave voz do Brasil, a do imortal
LUIZ GONZAGA DO NASCIMENTO.
Cinco imortais de peso. Luiz Gonzaga, Zé Datas, Humberto
Teixeira, João Silva e José Marcolino. Dentre eles, um gênio, filho
das cidades do Exu, Crato e de Juazeiro do Norte, terra do
Padre Cícero, meu Padim, o santo dos sertões. Gênio que resgatou a
cidadania de um povo, o tirando da invisibilidade da vida, Luiz Gonzaga do
Nascimento, o pernambucano do século.
Um pássaro, uma chapada, a seca, a chuva, uma estrada e
depois a irrigação. Estes fatos, acontecidos no Nordeste Brasileiro, foram
documentados com o nome ASA BRANCA por cinco nordestinos de valor,
considerados pelos mesmos, verdadeiros sobreviventes.
Iderval Reginaldo Tenório
Posfácio
Luiz Gonzaga e os seus parceiros foram os maiores
documentadores dos fatos brasileiros, o país está retratado nas suas
obras.
Mais de 1000 músicas gravadas, mais de 100 LPs próprios,
participação em mais de 1000 de outros artistas.
Cada episódio, cada cidade, cada amigo, cada momento e
cada povo está pinçado, ovacionado, registrado, imortalizado e reverberado na
mais autêntica voz do Brasil, LUIZ GONZAGA DO NASCIMENTO, o
imortal rei do baião, um gênio que nunca desafinou.
" Vai, boiadeiro, que a noite já vem
Guarda o teu gado e vai pra junto do teu bem"
Klecius Caldas / Armando Cavalcante
Asa Branca
Compositores: Humberto Teixeira / Luiz Gonzaga
Quando oiei a terra ardendo
Qual fogueira de São João
Eu perguntei a Deus do céu, ai
Por que tamanha judiação
Eu perguntei a Deus do céu, ai
Por que tamanha judiação
Quando oiei a terra ardendo
Qual fogueira de São João
Eu perguntei a Deus do céu, ai
Por que tamanha judiação
Eu perguntei a Deus do céu, ai
Por que tamanha judiação
Que braseiro, que fornaia
Nem um pé de prantação
Por falta d'água perdi meu gado
Morreu de sede meu alazão
Por farta d'água perdi meu gado
Morreu de sede meu alazão
Inté mesmo a asa branca
Bateu asas do sertão
Entonce eu disse, adeus Rosinha
Guarda contigo meu coração
Entonce eu disse, adeus Rosinha
Guarda contigo meu coração
Hoje longe, muitas légua
Numa triste solidão…
Espero a chuva cair de novo
Pra mim vortar ai pro meu sertão
Quando o verde dos teus olhos
Se espalhar na plantação
Eu te asseguro não chore não, viu
Que eu voltarei, viu
Meu coração
Eu te asseguro não chore não, viu
Que eu voltarei, viu
Meu coração
Luiz
Gonzaga - Asa Branca (Rei do Baião) - YouTube
www.youtube.com/watch?v=cWiJL0_yj9c
A VOLTA DA ASA BRANCA -
Zé Dantas e Luiz Gonzaga
Já faz três noites
Que pro norte relampeia
A asa branca
Ouvindo o ronco do trovão
Já bateu asas
E voltou pro meu sertão
Ai, ai eu vou me embora
Vou cuidar da prantação
A seca fez eu desertar da minha terra
Mas felizmente Deus agora se alembrou
De mandar chuva
Pr'esse sertão sofredor
Sertão das muié séria
Dos homes trabaiador
Rios correndo
As cachoeira tão zoando
Terra moiada
Mato verde, que riqueza
E a asa branca
Tarde canta, que beleza
Ai, ai, o povo alegre
Mais alegre a natureza
Sentindo a chuva
Eu me arrescordo de Rosinha
A linda flor
Do meu sertão pernambucano
E se a safra
Não atrapaiá meus pranos
Que que há, o seu vigário
Vou casar no fim do ano.
Compositores: Luiz Gonzaga / Ze Dantas
www.youtube.com/watch?v=whKGCQiD7iY
Rodovia Asa Branca
Eu vi um dia
Dois homens fazer um trato
De ligar Exu ao Crato
Pernambuco ao Ceará
O homem de cá
Trabalhou chegou primeiro
E o de lá também ligeiro
Num dançou eu chego lá
Olha o homem aí
É gente da gente
Olha o homem aí
Alegre e contente
Olha os homen aí
É o povo que diz
Olha os homen aí
Juntos com Luiz
Roda, rodada
Rodando, roda rodeia
Rodovia, Asa Branca
Tá todinha prá você
Olha o homem aí....
www.youtube.com/watch?v=NHkL54Gugjc
Projeto Asa Branca
Luiz
Gonzaga/ ZÉ MARCOLINO
Ainda não temos a cifra desta música. Contribua!
Louvado seja Deus
Abençoada a canção
Louvado seja o homem
Que dá água pro sertão
Bendito foi o momento
De divina inspiração
Quando feita a conclusão
De um grande planejamento
Dia onze de dezembro
Do ano setenta e nove
Vem à tona e se promove
Uma idéia rica e franca
Marco Antonio Maciel
Criou o Projeto Asa Branca
Dia vinte e um de março
Data marcante, ano oitenta
Maciel num tempo escasso
Prevendo a seca cruenta
Na cidade de salgueiro
Promoveu o lançamento
Para o engrandecimento
Da terra em sua mensagem
Consagrou esse projeto
Pra salvação da estiagem
Parabéns sertão e agreste
Pela graça que hoje alcança
Com a cor da esperança
Toda a região se veste
Tantas obras preventivas
Por ele realizadas
Açude, barragem, estrada
Para comunicação
Prendendo as águas dos rios
Pela perenização
Um comentário:
Aravilhos dos genios estudiosos e tambem os genios estudados até os dias de hoje versando e cantando esse magnifico Nordeste. Salve os biomas nordestino e salve os quatros elementos da Natureza, alias 3 pois a agua era muito dificil, mas dava esperança, força, coragem6 ao sofrido nordestinos a permanecerem na terra.
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