quinta-feira, 9 de julho de 2026

Incêndio na Chapada do Araripe.

   






     Incêndio na Chapada do Araripe.   


1964, a caatinga ardia em chamas, alguns trabalhadores roçavam as ressecadas moitas  de jiquiris e os arbustos do semi árido nordeste. 

Mulheres  limpavam os aceiros da estrada carroçal, retiravam garranchos,  gravetos e  capins desidratados, uma vez que tem a mesma combustão da gasolina e da pólvora. 

Chuvas dois anos  atrás.  Barreiros secos,  animais esquálidos e as Asas Brancas a procurarem outras plagas. Pássaros resistentes e  répteis  contracenavam com as trêmulas miragens a lamberem o duro, vermelho e ressecado  solo  serrano. 

Caatinga cinza,  sol causticante a queimar a pele, a cabeça, o coração, a mente e a alma dos homens do campo, mais um período de seca. 

Carcarás, gaviões e cascavéis à   procura de preás, saguins, calangos, pássaros, besouros, formigas e cupins,   rodeavam as ilhas verdes e   sombreadas  pelos umbuzeiros, cajueiros, facheiros, xique-xiques e mandacarus.

Rajadas de ventos quentes e  redemoinhos levavam de eito o que encontravam pela frente. Carregavam  penas, ciscos,  folhas, ninhos ,  restos de gafanhotos, argilas, estercos e tudo  que encontravam,  como se a velha Chapada do Araripe estivesse a caducar ou injustamente pagando  pecados não cometidos.

Num visível processo de desertificação,  as lufadas  e o mormaço invadiam as indefesas capoeiras a consumir, impiedosamente, os últimos lampejos de vida.

Pássaros, insetos rasteiros, insetos  alados e até mesmo alguns  répteis eram sapecados pelo sol causticante.

As  xerófilas  cabeças de frades,  rabos de raposas e mandacarus maltratados pelo escaldante calor,  transformavam a caatinga num cinza transparente, expondo ao sol ardente    os  animais, os vegetais e os recursos naturais,  modificando   o ecossistema.

Céu azul, sem nenhuma nuvem, propiciava a visibilidade do mais longínquo infinito.  O astro rei, o sol,  como se estivesse a metros, consumia  com as suas  labaredas a ressecada e moribunda carcaça da velha Chapada do Araripe.  

Zezinho viu, viveu, apagou fogo e sobreviveu.  A  mente da criança gravou  as dantescas cenas.

O fogaréu vermelho, os estalos dos gravetos  em chamas, indiscriminadamente cuspiam fumaça, enquanto as faiscantes e incandescentes  fuligens, carregadas pelos ventos, salpicavam a troposfera a espalhar fagulhas  para outras paragens.

Homens, com molambos molhados no rosto,  a proteger as ofegantes narinas e os olhos tracomatosos movimentam-se  em desespero.  Mulheres com panos e vassouras de galhos secos, cuidadosamente,  varriam as margens da estrada.  Adolescentes, com cabaças d'agua a matar a sede e  ensopar os molambos  dos apagadores do fogo  corriam aflitos e  aos gritos com os nervos à flor da pele.   

O Zezinho, encravado no coração do furdunço fumacento,  à procura dos pais,  fazia parte do tenebroso cenário, foram momentos de medo, choro, insignificância,  coragem e de reflexão

Foi mais um episódio vivido e registrado na sua existência pueril, mais uma lição da natureza e a certeza que o homem do campo, o homem sofrido do nordeste é forte, resistente e merece respeito.

O menino cresceu, lutou, estudou e envelheceu, porém jamais deixou que a criança agreste, que existe dentro de si, sucumbisse e desaparecesse do seu cotidiano.

Entendeu que os segredos da vida, só sabe  quem viveu, quem presenciou e sentiu.  Traz de lembranças algumas cicatrizes e dois pterígios, frutos dos empedernidos raios solares e são   marcas registradas dos povos dos  sertões nordestinos.

Zezinho fez e faz parte deste tenebroso  universo.  Ele viu, viveu e sobreviveu,  Zezinho é um sobrevivente.  

Como disse o Euclides da Cunha, em "Os Sertões": " O nordestino  é antes de tudo, um forte". 

       É um verdadeiro apagador de incêndios, é um sobrevivente.

Salvador, 18 de Março de 1986

Iderval Reginaldo Tenório

ESTA MUSICA DOCUMENTA UM INCENDIO NO PARANÁ, NA SERRA DO ARARIPE ERAM MAIS FREQUENTES .

Fogo No Parana

2:50
Provided to YouTube by RCA Records Label Fogo No Parana · Luiz Gonzaga Sanfona Do Povo ℗ 1964 SONY MUSIC ENTERTAINMENT BRASIL LTDA.
YouTube · Luiz Gonzaga - Topic · 9 de nov. de 2015

 

Um comentário:

iderval.blogspot.com disse...

"INCÊNDIO NA CHAPADA DO ARARIPE" — 18.03.1986 — SalvadorIderval escreveu isso com 32 anos. 40 anos antes do blog de 2026.Mas é o mesmo Zezinho. O mesmo fogo. A mesma resistência."Basta um clique" não tem aqui. Tem memória, fumaça e cicatriz.O que Iderval registrou:1. O cenário 1964Caatinga cinza. 2 anos sem chuva. Barreiros secos. Animais esquálidos. Asas Brancas fugindo.Sol causticante queimando pele, cabeça, coração, mente e alma.Iderval: desertificação. Ventos levando pena, folha, esterco. Chapada "pagando pecados não cometidos".2. A batalhaHomens com molambo molhado no rosto. Mulheres com vassoura de galho. Adolescentes com cabaça d'água.Zezinho encravado no furdunço fumacento, procurando os pais.Iderval: estalos, fumaça, fagulha no céu. Medo, choro, coragem, reflexão.3. A marca"Zezinho viu, viveu, apagou fogo e sobreviveu. A mente da criança gravou as dantescas cenas.""Cresceu, lutou, estudou e envelheceu. Jamais deixou a criança agreste morrer.""Duas cicatrizes: pterígios dos raios solares. Marca registrada do sertão."Iderval: segredo da vida só sabe quem viveu e sentiu.4. A sentençaEuclides da Cunha: "O nordestino é antes de tudo, um forte"."É um verdadeiro apagador de incêndios, é um sobrevivente."Iderval: respeito ao homem do campo.Como "Incêndio 1964" explica toda obra 2026:1. "Zezinho e a Carroça"Lá: pai diz "se não estudar vira carga".Aqui: Zezinho já apagava fogo com 8 anos.Iderval: carroça e incêndio. Mesmo professor: dor.2. "R1 Zezinho"Lá: R1 é dono do paciente.Aqui: Zezinho era dono do fogo. Apagava com molambo.Iderval: as 4 pilastras nasceram na fumaça.3. "Dona Duzinha 1954"Lá: 10 anos antes. Fome, malária, abandono.Aqui: 1964. Seca, incêndio, abandono.Iderval: Duzinha e Zezinho são da mesma Chapada. Mesma guerra.4. "Pão" + "Escravização"Lá: 80% vendem alma por pão. Viram gado.Aqui: Zezinho não vendeu. Virou apagador.Iderval: seca escraviza. Mas fortalece quem resiste.5. "Necropolítica"Lá: Mbembe. Decidir quem vive e quem morre.Aqui: 1964 Chapada. Barreiro seco, sem assistência.Iderval: necropolítica já queimava caatinga.6. "Vida pela Vida"Lá: vida só de sobreviver é aberração.Aqui: Zezinho sobreviveu E criou arte: médico, escritor.Iderval: não basta apagar fogo. Tem que plantar depois.7. "Léo Reis"Lá: Léo trocou metrópole por paraíso.Aqui: Zezinho não trocou Chapada. Ficou e apagou.Iderval: dois jeitos de resistir.A frase que é brasa:"O nordestino é antes de tudo, um forte".Iderval: forte não é quem não chora. É quem apaga fogo e depois escreve.Zezinho 1964 apagou fogo.Zezinho 2026 apaga ignorância com blog.Dona Duzinha 1954 apagou fome.Léo 2026 apagou metrópole.3 lições do incêndio que Iderval deixou pra 2026: Aceiro salva: mulher limpava estrada. Tire o combustível antes do fogo. Molambo molhado: proteja respiração. No "Pão", proteja consciência. Criança grava: o que você vive hoje vira cicatriz ou vira força amanhã.Pergunta de Iderval:Que fogo você tá apagando hoje com "molambo molhado" pra que Zezinho de amanhã não pegue?Quer que eu junte "Incêndio 1964" + "Duzinha 1954" + "Necropolítica" e monte 3 jeitos de fazer aceiro contra a desertificação humana de 2026?