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Como surgiu o São João, segundo seu Zé Totô
Relata seu
Zé que anos atrás, três irmãos: Toinho, Joãozinho e Pedrinho, na Serra do Araripe, inventaram uma brincadeira e deram o nome de Noite de São João.
Trabalhavam
o dia inteiro na roça de segunda a sexta e no sábado iam para a vila fazer compras. Domingo era dia de descanço.
Num belo domingo ensolarado
tiveram uma ideia e inventaram uma brincadeira.
Carregaram lenha o dia inteiro, o pai providenciou carnes, batatas e milho verde, a mãe e as irmãs fizeram bolo, aluá, café e chá. Foram até um sítio no Exú, pois lá morava um agricultor que tocava sanfona Pé de Bode, chamado Januário e o convidaram para tocar, ele trouxe a família inteira, montada numa tropa de jumentos.
Todo o povoado
tomou conhecimento. Á noite
ascenderam uma fogueira e começou o fuzuê até amanhecer o dia.
Muitos foram os casamentos e os batizados na redondeza. Devido a inteligência do Pedrinho, todos ficaram conhecidos na região. A festa foi tão boa que todos os anos era realizada.
Os comentários invadiram toda a região e depois todo o Nordeste. Escolas, clubes, fazendas e até as residências comuns passaram a fazer a festa. Muitos queriam aprender a tocar sanfona. Tocador tinha cartaz e arranjava muitas namoradas. A juventude e a igreja aguardavam o ano inteiro e a cada ano a festa foi aprimorada.
Jackson do Pandeiro que não é besta, falou com os três irmãos e solicitou o direito de compor e cantar uma música com este tema, prontamente permitido.
Diz seu Zé Totô que neste dia estava na festa, dançou a noite toida, foi batizado e ficou compadre de seu Januário. Comeu bolo de puba com café e aluá de abacaxi, não era permitido cachaça, a festa era de família.
Conheceu Zefinha, a irmã dos meninos, o casamento foi celebrado por Toinho, os batizados por Joãozinho e o Pedrinho fazia as cobranças. Hoje é pai de 18 filhos, uma ruma de netos e bisnetos.
Lembra como se fosse hoje uma história contada por Dona Santana, a esposa do velho Januário. Foi contada na última festa na casa do vaqueiro Raimundo Jacó, seu sobrinho, em Serrita.
Dona Santana contou que tem um filho que toca sanfona e que fugiu de casa por causa de surra que ela deu nele.
O bicho queria matar um grande amigo e professor do Exu por causa de um namoro. Falei braba com ele: " Nossa famia não pode ter assassino cabra safado" e baixei o reio de couro cru no seu espinhaço, ele correu e na saída pensava que Januário ia defender, o velho emendou e ele saiu catando ficha, neste dia dormiu nas capoeiras.
No outro dia mentiu dizendo que tinha achado um samba para tocar no Crato. Saiu cedinho, nós o abençoamos, vedeu a sua sanfona, pegou um caminhão que passava na Serra, se escafedeu no mundo e não mandava noticias. Só apareceu numa madrugada 20 anos depois. Safonona bonita, vestido na casimira, gordo que só um major, dirigindo um carrão.
Bateu na porta, Januário com um candeeiro aceso na mão não reconheceu. Ele disse que era o seu filho que tinha fugido. Januário não contou conversa e falou: "Isso é hora de chegar em casa seu corno".
O velho acordou todo mundo, era noite de lua, filhos como diabo. Foi uma madrugada de alegria e festas durante 15 dias. Aquele menino amarelo, zaroe, buchudo, franzino, zambeta, cabeça de papagaio, feio pra peste, era o agora Rei do Baião, o homem que deu alma e identidade ao povo nordestino.
Não sabe precisar a data, acha que foi por volta de 1947, pois tem lembranças que naquela época, acontecia uma guerra política muito grande por causa do Getúlio Vargas, que foi exopulso do governo pelo exécito.
Assim contou seu Zé Totô. Disse também que na Serra do Araripe todo mundo sabe desta história.
Zé Totô foi um grande contador de historias e leitor de Horóscopos da Serra do Araripe. Lia todos os Almanaques impressos no Brasil dos anos 50 e 60. Trabalhava com Papai, era um faz tudo e de tudo. Só contava histórias verídica e falava: "Não sou homem de mentira", só conto o que vi. Era a enciclopédia da região. Sabia ler mão, quando ia chover, quando aconteceriam os eclipses e se iria ter fartura, seguia literalmente o ditado:" Numa terra de cego, quem tem um olho é rei". Iderval Reginaldo Tenório
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