sexta-feira, 22 de maio de 2026

ZEZINHO CONVERSA COM A NATUREZA

 




ZEZINHO E A NATUREZA  

 

Você sabia que ser sustentável é também preservar a natureza?

fundo do sol da natureza com o homem sentado debaixo da árvore 9432521  Vetor no Vecteezy


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 CAPÍTULO I

     O MENINO

Zezinho,7 anos de idade,  mora  no campo e ainda não frequenta  as escolas do imaginário humano. Sonha com este dia, porém  é PhD  na linguagem dos seus maiores amigos: A terra, a chuva, o sol, a lua, a noite, o dia, a água, os ventos,  as plantas, os animais domésticos,  os  silvestres, os  pássaros, os insetos e até os répteis. 

O menino fala a linguagem da natureza. É poliglota, etólogo,  ambientalista, sociólogo, ecologista,  biólogo, agricultor, pecuarista e outras da sua  imaginação, só não sabe  as leituras desenvolvidas pelo imaginário humano. Ensinamentos constituídos de   demandas seletivas, excludentes e que    estudam os fenômenos  materiais, imateriais e ao mesmo tempo  sedimentam os mecanismos  da estratificação da sociedade. É uma  Educação   de cabal importância para o homem ascender na escala socioeconômico e cultural, e  não continuar no limbo ou na base da pirâmide  social   criada pelos humanos. O Zezinho tem sede do saber e olha para o futuro da humanidade.  

Diz  a neurociência,   que na primeira infância, a linguagem oficial é a que prega   o amor, a verdade, a pureza, o  respeito, a compaixão, o compartilhamento, a linguagem de todos os animais, a  sinceridade, a inteligência e da igualdade entre os seres humanos.  Com o passar dos tempos, o homem vai remodelando  pilar por pilar, pedra por pedra,  para que possa, com as agruras sofridas,  construir os templos do artificialismo da vida. 

Obedecer   os bons princípios pétreos  da linguagem da primeira infância, é fundamental para o forjamento do cidadão; porém,  na   trajetória da vida e na primeira fase, muitos sofrem  avarias  morais, danificam a  personalidade, entram num mundo obscuro e sedimentam  diversos  desvios de comportamentos que serão aplicados na vida adulta.


                                      CAPITULO II

                               O DIÁLOGO COM O SOL

Conta  Zezinho que tem conversado com os seus amigos de infância, todos têm queixas contra o comportamento dos seres  humanos, principalmente dos povos mais desenvolvidos. 

Diz que o Sol  é a principal peça do sistema solar, alimenta  a terra e os demais planetas sem distinção, sem  preconceitos  e nada pede em troca, sabe da sua tarefa, de sua importância e  anda preocupado com a atuação dos humanos. Tem observações e  reclamações a fazer. 

Dizem os homens, que  ele, o sol, é o responsável pelo câncer de pele,  que  resseca o solo, evapora as águas dos rios, oceanos, lagos, córregos e açudes e é o   vilão da desertificação do planeta.

Esquecem, os homens, que estes  atos fazem parte de sua função, são necessários para os ciclos  da vida. 

Diz que na Natureza, nada se cria, nada se perde, tudo se transforma e não pode e nem deve    mudar o seu comportamento, é o seu ofício. Faz este trabalho há 5 bilhões  de anos  e ainda tem mais 5 bilhões para atuar. Refere que os seus raios,  na velocidade da luz, 300 mil quilômetros por segundo, gastam 8,5 minutos e viajam 150 milhões  de quilômetros para chegar à   terra, lhe dando vida e esperança.

Reforça que as árvores   recebem   os raios solares, fazem a fotossíntese, produzem  frutos, grãos e   tubérculos  que alimentam os homens e os animais  herbívoros, estes  consomem os vegetais,  multiplicam-se e são consumidos pelos  homens e pelos  animais  carnívoros. 

Enfatiza  que compondo o equilíbrio da natureza, existem os  os produtores, os consumidores e os decompositores, todos estão sob a sua batuta.

Afirma  que o arroz, milho, feijão, soja, trigo, lentilha, ervilhas e as favas são  energia solar concentrada em forma de grãos, da mesma forma  que são todos os tipos de carnes.  É peremptório  em afirmar  que é  a mais importante fonte de energia,  de  vida  e de   saúde  para toda a natureza, inclusive para os  humanos. Relata  que,  o que os seres vivos  comem,   nada mais são do   que  energia solar compactada em proteínas, glicídios, lipídios, hidrocarbonetos e sais minerais.                                                                                                         

CAPITULO  III

OS RIOS

O Sol, o líder do grupo,  traz diversas queixas dos seus componentes.

Os  Rios andam assombrados e perplexos com o futuro, encontram-se  exaustos e não aguentam as atrocidades praticadas pelos humanos. Cortam as árvores das suas margens, constroem habitações nos seus trajetos, desviam aleatoriamente as suas águas e jogam dejetos de todos os tipos  nos seus leitos, especificamente orgânicos,  químicos, metais e os tóxicos. Reclamam que um dia poderão não suportar  tais agressões  e poderão perecer antes do tempo, alertam  que   a promoção   da vida é  função de todos.

Lembram que nas suas águas vivem diversos tipos de vidas e por onde passam alimentam milhares de outras vidas, tanto vegetais como  animais e são as artérias da terra. Transportam muitos nutrientes na suas águas e juntos  aos oceanos, lagos, córregos, lagoas, açudes, aquíferos  e outros trajetos subterrâneos   levam a vida para todos. 

Enfatizam que a Terra é  viva e nunca para de se transformar, vive em metamorfose, depende das suas águas e dos nutrientes que nelas se encontram.

Apontaram um grave crime que os humanos praticam contra os peixes, os  seus maiores moradores.   

Os peixes vivem felizes nas suas águas,  suprem a cadeia  alimentar, inclusive os  humanos. São peças  importantes nas complexas  propriedades  da vida e para todas as espécies que habitam a terra.  

O que  é inadmissível e sem defesa, é o fato dos humanos pescarem  para o entretenimento, dizem que pescam pelo lazer, isto  não é ético.

Enquanto divertem-se e riem,   maltratam os inocentes peixes e  vangloriam-se das atrocidades praticadas, mais de 80% dos peixes pescados e soltos morrem pelas as avarias sofridas. Os Rios não  entendem como um homem pode se sentir feliz em prender  um peixe pela boca, tem-se a impressão que o homem é sanguinário.

 Veja um trecho  do  relato vivido por um dos rios:

“Os homens usam anzóis de metal camuflados com   fragmentos de carne, o peixe  pensa que é alimento e tenta engolir para matar a fome, o pontiagudo ferro encrava na sua boca, o animal passa  horas  brigando para se livrar  e não consegue. Sem forças, exausto e com ferimentos  é vencido, os homens  ficam felizes, pulam   de  contentamento por este satânico e criminoso ato. Não se resignam e nem se comovem com as dores, o sofrimento e o pânico que passa aquele animal. Depois o expõe   ao público ridicularizando e o envergonhado.  Em seguida  o solta  na mesma água com avarias na cabeça, ferimentos na boca, nos olhos, barbatanas, queixo,  guelras e garganta, fica moralmente  destruído, é uma afronta  a vida, é  um ato inescrupuloso, depois morrem pelos ferimentos sofridos”.

CAPÍTULO IV

AS FLORESTAS

As Florestas, constituídas de diversos tipos de vidas, tanto animal como vegetal, dizem que estão sendo destruídas. Nas nações desenvolvidas, notadamente na  Europa, praticamente não existem mais, os humanos daquela região, em  500 anos,  acabaram com as suas  reservas e quase todos os recursos naturais.

Das matas nativas restam poucas. Na Europa as matas são artificiais, monoculturas,     frutos do reflorestamento por lei, geralmente  coníferas.

Alegam que este povos,  para tornarem-se desenvolvidos, tiveram que danificar todo o ecossistema, consumindo os recursos minerais, vegetais e  animais.

Hoje, estes povos gastam fortunas para o plantio de milhões de árvores, porém sem a diversidade das florestas originais, no intuito de recompensar os crimes cometidos contra a natureza. O mais estranho, é que todo o planeta chama este ato de civilização desenvolvida, porém, para  a natureza  um verdadeiro contrassenso, um absurdo, um crime socioambiental. Não satisfeitos, estão invadindo e tomando  os recursos naturais das nações periférica das  Américas, África, Ásia, Oceania e Oriente  em busca de matérias primas para o fabrico de tudo que consomem, tanto minerais,  vegetais e animais,  destruindo todos os biomas e eliminado vidas humanas e  não humanas.

Queixam-se as Florestas, que as suas   árvores estão sendo derrubadas para a fabricação de móveis,  papeis, fazer fogo, pastos,   agricultura e para a construção civil.

Grandes áreas são reservadas para a construção de cidades,   exploração dos minerais  e tudo  que o homem necessita. Os homens desenvolvidos  estão devastando as florestas em todo o planeta.

Primeiro acabaram as deles e agora estão invadindo as nações subdesenvolvidas e danificando o ecossistema. A velocidade de destruição é maior do que a de recuperação, estes danos trarão grandes mudanças na natureza.

O Sol trouxe graves reclamações da própria terra.

Relata que os seus morros, chapadas, montanhas, serrados e as  planícies,  por possuírem pedras preciosas, águas subterrâneas, terra raras e combustíveis fósseis estão sendo dilapidadas. Jogam explosivos, destroem as suas entranhas, abrem os seus corpos  em busca destas riquezas; estas atitudes fulminam muitos tipos de vida e o meio ambiente. Contaminam as águas dos rios, mares, lagos,  os aquíferos e o lençol freático, os homens são impiedosos.

                                   CAPÍTULO V

                                    AS ABELHAS

O Líder Sol  trouxe queixas de quase todos os grupos, muitas inacreditáveis, veja as queixas das abelhas .

As abelhas falaram que os humanos roubam o mel que elas produzem, o mel  que alimenta a sua rainha e toda a  colmeia, eles deveriam deixar parte  para os produtores. Lembram  que uma abelha vive pouco,    de 40 a 60 dias, que cada uma produz em  média de 4 a 6  gramas de mel durante toda a sua existência, faz 40 voos por dia, visita de 10 a 12 flores por minutos e pousa em até  40mil flores por dia.  Poliniza todas as plantas visitadas,  afasta-se até 2  mil metros   da colmeia, orienta-se pelos raios solares e as vibrações magnéticas do cosmo. A vida de uma  abelha é dura, não se reproduz, não tem decisão própria, apenas trabalha, é uma  verdadeira operária escravizada.  

Refere que os humanos chegam  e roubam os  alimentos da sua família. Indagam para si,  por que não se contentam com o trabalho gratuito de polinizar as flores? serviço este responsável pela geração dos frutos. Ratifica  que esta tarefa já seria de bom tamanho, já seria suficiente, já seria uma nobre e impagável atitude, porém os homens querem mais, querem tudo, até o própolis e a cera, injustamente, confiscam. 

Além de furtarem o mel, matam muitas abelhas, envenenam e intoxicam outras  com fumaças. Promovem verdadeiros incêndios ao redor da colmeia e acabam com a vida de outros insetos.  Os homens são  perversos com os outros animais, só pensam neles, consideram que o mundo foi feito só para eles e tudo que existe foi feito para lhes servir. O humanismo é a razão principal dos humanos, tudo  e todos só para eles.

                                     CAPITULO VI

                                   QUEIXAS GERAIS

O Sol fez uma pausa e trouxe à tona  acontecimentos inaceitáveis com os animais .

Citou as maldades nas vaquejadas, touradas, brigas de canários,   cães e galos, as grandes  cargas colocadas nos jumentos, camelos,  burros, cavalos e nos bois de tração,  além do uso do ferro quente com a marca dos donos, das esporas, cabrestos,  rabicho, boqueira, esmaga-bagos  e dos chicotes . 

Falou dos furtos do leite bovino, caprino e ovino,  dos envenenamentos dos insetos e dos anelídeos  na  lavoura.

Esquecem-se que estes insetos, juntos às abelhas,  estão em busca da sobrevivência. Ao mesmo tempo que comem, polinizam as flores e são fontes  de alimentos para muitos outros animais, os pássaros por exemplo. Ao serem envenenados, em cadeia, diminuem as polinizações, eliminam milhares de pássaros, sapos e repteis, desequilibram o ecossistema.

Disse também, que tem seres humanos que retiram totalmente as vestes das ovelhas, isto é, tosam toda a sua lã, a sua proteção. Ferem a sua pele e as deixam nuas, expostas ao frio, sol e ao relento.

São  muitas as  crueldades em nome do progresso, do desenvolvimento e do humanismo. Prendem milhares de pássaros em gaiolas  e lhes tiram a liberdade, a maior propriedade que um ser vivo possui,  que é viver livre na natureza. Frisa que todos os animais nascem alforriados. É como os humanos, não existem homens escravos, existem homens escravizados. Pede que olhem para os grandes animais selvagens, muitos em fase de extinção. Com o álibi de preservação, os homens os mantêm presos em gaiolas nos circos, zoológicos, pequenas reservas longe dos seus habitats naturais e originais, vivem literalmente escravizados.

Depois destas informações, o sol   fez algumas observações e foi claro. Os homens precisam ter mais cuidado e respeito para com a natureza. 

CAPÍTULO VII

VEIO A NOITE

Veio a noite, o menino e o sol   recolheram-se. O Zezinho  foi para casa  e o sol viajou para o outro lado da terra, foi conversar com os seus amigos de lá.

O Sol  tem amigos no mundo todo, ele não possui desafeto, não dorme, não descansa e vive sempre a reverberar energia para todos os planetas do sistema solar, deveria ser o espelho para toda a humanidade.  Tudo e todos   dependem da sua atuação. Fala todas as línguas da natureza, a dos minerais, dos vegetais e a dos animais, dos mais simples aos mais evoluídos.  O Sol entende  de todos os fenômenos da natureza.                                  

VIII

O OUTRO DIA

Veio o  outro dia,  ao abrir a porta, lá estava sol, forte e brilhante. Com os olhos nos olhos do Zezinho falou sério e compenetrado,  expressou-se  pausadamente, professoralmente.  Disse que eram   as suas últimas palavras, foi claro, pois  achava que estava abusando da  paciência do atencioso humano e passou este recado:

"Amigo Zezinho,  diga aos humanos  que sejam amigos da natureza, assim como você. Ela é mais forte do que a junção das forças  de todos os animais humanos e não humanos  que habitam a terra.

O Globo Terrestre é vivo e destruí-lo é uma tarefa impossível  para os que vivem nele, o Globo vive em eterna transformação.  Cem, duzentos, mil ou milhões de  anos   para a terra, para o sistema solar e para a via láctea  são  fragmentos de tempo insignificantes, lembrem-se que ainda faltam 5 bilhões de anos para o sol fagocitar o planeta, 5 bilhões.

Quem modifica a terra desde a sua criação       são os fenômenos naturais:  Eu (o sol),  os rios, os tornados, os mares,  as chuvas,  os vulcões, as tsunamis, as voçorocas, o fogo,  os terremotos, os raios, os trovões, os relâmpagos, os ventos, os tornados, as mudanças do clima, a influência  dos outros  planetas,  as estrelas e outros fenômenos desconhecidos desta civilização. 

Os humanos jamais a destruirá, no máximo podem modificar o pequeno    mundinho no qual vivem, o fragmento do solo que habitam, no máximo desequilibram o seu pequeno  ecossistema. 

Com estes arranhões, podem danificar quem lhes proporcionam    os seus sustentos, dificultando a sua sobrevivência  e todos os tipos de vidas  naquela região. Eles  destroem   os seus biomas, veja que os grandes centros buscam a água, para consumo, a centenas de quilômetros de distância.  

Os homens ao explorarem  os recursos naturais dos seus ecossistemas  poluem as águas, destroem morros,  montanhas   e as florestas,  desequilibram   a fauna e a  flora.  

Vai chegar o dia que, o que se ganha em um ano, será gasto para recuperar  uma única catástrofe natural ou provocada pelos humanos.

 Com as suas atitudes, quem vai ao fim  é a civilização. Tal qual as outras que sucumbiram, esta também  sucumbirá, é apenas questão de tempo."

CAPITULO IX

O RECADO

"Diga aos humanos, que preservar os recursos naturais ou explorá-los com respeito  é preservar a continuidade da vida. Lembrem-se  que muitas civilizações já se  foram, esta também irá e outras surgirão. Para a terra   ainda restam 5 bilhões de anos."

CAPITULO X

FECHAMENTO

O menino Zezinho, de posse destas informações,  e após o diálogo com o sol, elaborou este   ensaio. Pede que todos tomem  conhecimento  e   tenham consciência que a terra é propriedade de todos que nela  se encontram, dos animados aos inanimados .  

  A terra é de todos e merece respeito.

O homem não está acima da natureza e  nem acima dos animais não humanos. 

Iderval Reginaldo Tenório

 

Luiz Gonzaga Do Nascimento / Aguinaldo Batista De Assis

Luiz Gonzaga 1989 Xote Ecológico (Letra) - YouTube

De Luiz Gonzaga Do Nascimento / Aguinaldo Batista De Assis

Pol

A terceira margem do rio. Guimaraes Rosas. Um conto para a vida em 15 minutos.

 

Amigos, muitas vezes em 15 minutos de escutação, o ser humano faz uma viagem pelos mais longínquos e profundos espaços reais, que estão  armazenados,  hibernados e à espera de um um dia aflorar na mente. 

O João Guimarães Rosas, nascido em  Cordisburgo, Minas Gerais no 27 de junho de 1908  e falecido  no Rio de Janeiro, 19 de novembro de 1967, mostra em 15 minutos todas as propriedades de uma existência.

Pegue 15 minutos e em silêncio, só ou acompanhado de uma, duas ou mais pessoas e faça esta empolgante viagem.  Viaje no tempo, no espaço e nos laços familiares, seja humano e agradeça de coração ao mestre Guimarães por este presente, que como o sol reverbera para todos sem distinção, isto é CIDADANIA.

Ganhe na vida em 15 minutos, uma eternidade. 

Apenas escute, apenas veja, apenas reflita. Seja apenas humano, apenas.

Um conto, em vídeo, com muita alma, que vale talvez bilhões e bilhões de  contos, porém é apenas um conto,  apenas,  porém de um dos  maiores contistas do mundo,   JOÃO GUIMARAES ROSAS. 

Fique em silêncio num aposento privado e mergulhe neste conto, já falei, é apenas um conto, mas que conto. 

Depois conte para os amigos a existência deste conto.

Enviado a este pecador pela Professora mineira, nascida em Brumadinho, MG, e um ícone na medicina brasileira.

Dra. Maria do Carmo Friche Passos, Presidente na Gestão 2015/2016, compartilha a sua trajetória e detalhes sobre o período em que presidiu a Federação Brasileira de Gastroenterologia.

Iderval Reginaldo Tenório

quinta-feira, 21 de maio de 2026

Lampião invade a fazenda do Coronel Tenório nas Alagoas.

 

Lampião invade a fazenda do Coronel Tenório nas Alagoas.


COISAS DO NORDESTE

                                                                 Coronel Tenório  

                                                                             e o

Capitão Virgulino Ferreira Lampião
 
I

A CHEGADA DO BANDO

O Coronel  Tenório era um homem de fibra. Um Nordestino autêntico, valente, decidido, justo  e respeitador, um homem calmo e sereno.  Foram estas  propriedades que deram ao coronel, uma  grande liderança  em todo o sertão, notadamente  nos grotões  das terras dos marechais.

Historiam  os mais velhos da família, os amigos e alguns dos seus comandados,  que num belo domingo ensolarado, na Fazenda Alvorada, nos sertões das Alagoas, lá pelos idos de 1930,  adentrou no casarão de  sua sede, o bando do famigerado e facínora Capitão Virgulino Ferreira Lampião.  
 
Naquela época,  o capitão  era considerado o terror do nordeste, o destruidor das famílias e dos homens de bem e de bens, e  que para se manter popular, protegido e invisível,  deixava para  os abandonados e sem camisas,  uma pequena parte dos seus roubos. Propriedade esta, praticada há centenas de anos pelos conquistadores e políticos desonestos da humanidade, vide o seu maior exemplo e espelho, o  inglês  Robin Hood. Com esta estratégia, raro era o sertanejo que o denunciasse ou passasse informações sobre os seus escondirijos. Foi assim que construiu o seu condado, a sua governança e o seu império. 

Contam os mais velhos, que Lampião chegou à sede da fazenda, bem na hora do almoço, o calor era infernal e o sol batia verticalmente sobre a cabeça dos sitiantes, escaldava e queimava a mais de quarenta e dois  graus. Encontrava-se com  sede e muita  fome, a munição de bucho estava no fim. Cortara os sertões  toda a madrugada por cima de pedras, tocos,  mandacarús, rabos de raposa e xique-xiques.  
 
O capitão adentrou com seis capangas, dentre eles, o perverso ferrador de mulheres,  Zé Baiano. Este,  deixava a ferro quente, a sua marca  ZB no rosto das vítimas

Maria Bonita, a Santinha, por segurança, ficou no oitão da casa protegida por dezoito homens armados até os dentes, além do seu maquiador, carregador de sacolas e cuidador dos animais, o Volta Seca, à época com 13 anos de idade e que depois dos 15 anos, transformou-se num dos mais miseráveis cangaceiros, estava acompanhada também   do novato Zé Sereno,  com 14 anos de idade,   e que dizia   que a sua caneta era um punhal e o papel o bucho de suas vítimas. 
 
Zé Sereno era um menino negro, magro, zoiúdo, serelepe e analfabeto,  era primo carnal do sanguinário Zé Baiano, um cangaceiro de olhos vermelhos e rosto petrificado.  Toda a sua família fazia parte do cangaço, pai, tios, tias, primos, sobrinhos, cunhados   e irmãos. Para matar, não fazia nem careta, bastava ser ordenado, tomava ódio da vítima logo que fosse designado ao crime. 
 
O capitão, o governador do sertão,   foi recebido pelo velho Tenório com muito respeito e entusiasmo.

          II- 

A RECEPÇÃO 

O Velho  Tenório, que saboreava um apetitoso e apimentado ensopado de carneiro, levantou-se e com voz firme e encorpada, falou dirigindo-se ao nobre visitante:

"Seja bem vindo a esta morada Capitão Virgulino Ferreira Lampião, há muito que espero e aguardo por sua aconchegante visita.  Aproxime-se,  aprochegue-se, junte-se a nós e traga os seus cabras. Aqui tem comida para todos e da boa, depois tiraremos uns bons dedos de prosa."

Lampião ficou em silêncio e perplexo com a inusitada e   corajosa recepção.  Um dos seus homens, mansamente  preparou o fuzil mauser 1908,  avançou o polido pente amarelo  cheio de cápsulas e encaixou a primeira para disparo. Apoiou a coronha no músculo peitoral   direito,  colocou o grosso e calejado  dedo indicador no gatilho e mirou a fuça do velho Tenório.

O Capitão Lampião na bucha falou:

"Abaixe a arma cabra safado, abaixe o fuzí e vorte os cartuchos, fique carmo, deixe de liotria, escuite o home."

O coronel Tenório emendou:

"Onde anda a guerreira Maria Bonita capitão, eu e a minha mulher, Waldirene, ficaríamos muito gratos em conhecê-la e termos a mesma na nossa mesa, seria um orgulho para todos nós"

 O capitão Lampião olha para trás e fala em voz arrastada:

"Pode entrar Santinha, o Coroné Tenório  e a sua patroa quer  lhe conhecer, pode entrar,  o coroné é de páiz."

Quando Maria Bonita entrou, o coronel levantou-se da cadeira, deu alguns  passos para frente e com entusiasmo falou:

"Capitão Virgulino Ferreira  Lampião, a mulher é muito mais bonita e formosa do que eu pensava e imaginava, o senhor está de parabéns em viver com uma senhora tão bonita, forte, firme, educada, inteligente, valente, corajosa muito afeiçoada. O capitão é na verdade um cabra muito macho, é um homem altivo, vencedor e de muita sorte.

Os cabras de Lampião não aguentaram as cortantes palavras e todos armaram os seus fuzis 1908 e miraram o coração  do dono da casa.
 
Lampião não suportou a ofensa dos seus cangaceiros  para com o corajoso anfitrião,  falou com o dedo em riste, olhos arregalados, cara de boi bravo  e voz em trovão:

"Abaixem as armas seus cabras  mal agradecidos, aprendam a respeitar um homem que é homem, um homem de valor. Um homem deste tipo, altivo, valente, decidido, macho e corajoso não merece morrer e nem ser importunado. Temos é que elogiar as suas ações, se mirar na sua coragem,  força e  ensinamentos, são homens deste tipo que o Brasil precisa, abaixem os fuzis cabras safados e respeitem o  coroné".
 
O silêncio foi sepulcral. 

Lampião e o seu bando almoçaram, confabularam até o anoitecer, jantaram os  miúdos do carneiro, em forma de buchada,   encheram  os seus alforjes de mantimentos, oferecidos pelo coronel e arriaram os animais. Maria Bonita, a Santinha, ganhou da esposa do coronel, dona Waldirene, alguns frascos de Perfumes e sabonetes  Phebo, os melhores da época, como também uma caixa aveludada portando um grosso cordão de ouro, 18 quilates, e uma medalha, também de ouro, cunhada com a imagem do  Padim Ciço de Juazeiro do Norte e  abençoada pelo próprio  Santo padre.
 
Perfilados e após o aval dos dois  rastejadores do bando,   sumiram e se encantaram   na caatinga  sertão adentro. 
 
Dizia Lampião que a noite é mais fresca,  mais segura e as fazendas ficam desertas. Enquanto o povo dorme o seu bando trabalha.
 
Nunca mais se soube de qualquer invasão do Capitão Lampião naquelas paragens.
 
O velho  Tenório, além de forte e corajoso, foi muito macho.
 
Coroné nos sertões do nordeste não é Coronel de Patente, basta ter terras, dinheiro e prestígios. Geralmente de pai para filho, não diferente dos políticos de hoje em alguns Estados do país. 

Iderval Reginaldo Tenório


O fuzil Mauser 1908, conhecido no Brasil como "Mauser 1908", foi uma arma de fogo amplamente utilizada no país, incluindo pelo grupo de Lampião e seus cangaceiros. O fuzil Mauser 1908 era uma cópia do Gewehr 98 alemão, calibre 7x57mm Mauser, e foi adotado pelo Brasil para substituir o Mauser 1894. 

Em 1926 para enfrentar a coluna Prestes, o Bando de Lampião foi convidado pelo Dr, Floro Bartolomeu, médico baiano que ajudou   o Padre Cícero e o Juazeiro do Norte  a decretar a emancipação politica, passando de distrito do Crato para cidade, na famosa guerra de 14, a Sedição de Juazeiro. Quando deputado pelo Ceará foi convocado pelo Governo Federal a enfrentar  o Carlos Prestes . Iderval Reginaldo Tenório

"Na época em que a Coluna Prestes, importante facção do movimento tenentista, ameaçava entrar no Ceará, uma força de combate à mesma foi armada em Campos Sales. 

O movimento liderado por Luis Carlos Prestes visava a conscientizar os sertanejos dos males causados pela república oligarca vigente até então.

 Organizado às pressas, em Juazeiro do Norte, no ano de 1926, pelo médico baiano e deputado federal pelo Ceará, Floro Bartolomeu da Costa, o Batalhão Patriótico tinha por missão deter a Coluna Prestes. 

O Batalhão foi deslocado de Juazeiro para Campos Sales, onde fixou seu QG, nos limites do Ceará e Piauí, sob o comando do Coronel Pedro Silvino de Alencar, do Araripe. O Governo enviou centenas  de fuzis e munições  que foram entregues a Lampião." Cariri Cangaço

 Não ouve a batalha, a coluna Prestes desviou o seu itinerário e lampião não devolveu os fuzis.  Debandou sertão a dentro, em 1928, entrou na Bahia e firmou reduto no Raso da Catarina (Bahia, Pernambuco e Alagoas), ali reconstruiu o seu Império e governança armado de fuzis, munição e muitos coiteiros.

Iderval Reginaldo Tenório

Um comentário:

Anônimo disse...

Caramba...
Essa história é um marco daquele período em que Lampião fazia o que fez!
Eu soube que meu avô, chamava-se Alyrio, também conheceu Lampião!