SONHO DE DOIS CHICOS – Xico Bizerra
Eram dois Chicos. Um, o Braçim, tinha esse complemento no nome por referência ao pai, que num acidente de ônibus teve amputado seu braço direito. Dele herdou o apelido e o gosto pelo jogo.
Nunca houve nas redondezas da rua Francisco Parreão e áreas adjacentes, bairro de Nazaré, em Fortaleza, um craque igual a ele, artilheiro nato.
Tudo bem que seus dotes de artilheiro se deviam, em grande parte, às assistências, como se diz hoje, que lhe proporcionava o outro Chico, o Cabecinha. Afinal de contas, ser 'garçom' no futebol é fundamental para a consecução do gol. Sonhavam, os dois, em ser jogadores de futebol. Inteligente, Cabecinha fazia jus ao apelido pela circunferência exagerada de sua cabeça.
O hábil e oportunista Braçim era um Ronaldinho Gaúcho nordestino, um Messi caboclo e, por que não dizer? um Pelé cabeça chata. Um Mestre na arte do drible, perito no saber fazer gol. Azar o de Zagalo que não o descobriu a tempo de levá-lo ao México, em 70. Sorte de Tostão.
E assim foi até que surgiu para Braçim a oportunidade de ir para a ‘peneira’ do Calouros do Ar, que disputava o campeonato cearense. Convocado, convocou o outro Chico para acompanhá-lo. Foram, os dois Chicos. Desabituados a jogar de chuteiras, fracassaram. Foram dispensados. Ainda tentaram a sorte no time do colégio em que estudavam, o Piamarta, disputante da segunda divisão cearense. O Treinador Pompeu, italiano grosso que só papel de embrulhar prego, não gostou do que viu e também dispensou os dois. Bem que futebol poderia ser jogado de pés descalços ...
De Braçim não se teve mais notícias. Do outro Chico, o Cabecinha, diz-se que foi embora para o Recife, passou a chamar-se Xico com ‘X’, substituiu o apelido pelo sobrenome real, Bizerra, e hoje faz músicas e escreve crônicas semanais, remoendo lembranças de um tempo em que sonhar era possível. Quem lhe ouve ou lê talvez preferisse que ele tivesse dado certo como jogador de futebol . .
Xico Bizerra
