terça-feira, 14 de janeiro de 2025

Zezinho, Pedrinho e a Natureza.

 

 

                                       Zezinho, Pedrinho e  a natureza.

 

Zezinho, 14 anos de idade,  encontrava-se de  férias nos sertões de Pernambuco, ano 1968. Pais  agricultores de subexistência, porém acreditavam na educação como uma das ferramentas para um futuro melhor e não deixavam os filhos sem escola.   

Zezinho saiu   com o primo Pedro em busca de uma caça para  comer. Ao furarem as capoeiras e os carrascos espinhosos,  e já exaustos, sentaram no tronco de um umbuzeiro, o único lugar que tinha sombra, sob o sol causticante daquele verão. Beberam  água de cabaça, enxugaram o rosto com a ponta da camisa  e seguiram enfrente.

As armas utilizadas não eram de fogo e sim duas baladeiras(estilingues) feitas de gancho de madeira, borracha de câmara  de ar e de couro velho de cinto, achado numa maleta de madeira forrada com couro cru cuidadosamente guardada pelo pai, uma vez que, no campo nada vai por lixo, isto é, nada se rebola  no mato, um dia será útil. A reciclagem no sertão é moda eterna e é levada  a sério.

Saíram em silêncio e logo viram um casal de Codorniz, são tão espertas e atentas  que voaram fazendo um grande barulho com o bater das asas, continuaram a caminhada. Pedro, que ia na frente, avistou um preá adulto e dois filhotes, puxou as borrachas da baladeira e Zezinho gritou alto: PARE PEDIM, exatamente para os animais ganharem a copeira e escaparem,  completou em voz  alta :

"Pedim, não se mata um animal ainda  filhote e nem uma mãe que conduz os filhos.  Quando um filho morre é um trauma para a mãe e quando uma mãe morre, com filhotes pequenos, eles sofrem, podem morrer de fome ou mesmo serem comidos pelos animais maiores, nunca faça isso Pedim, sei que aqui neste sertão é comum o homem sobreviver caçando animais, porém tem que seguir algumas regras, já imaginou  quantas crianças estão abandonadas no mundo por falta de uma mãe?".

 Pedro não gostou. Continuaram a caminhada e  sempre atentos com os animais peçonhentos, notadamente as cobras  cascavéis que tem matado muitas ovelhas, bodes,  bezerros pé duro, o gado da região e também pessoas. Cortaram a pé mais de duas horas de caminhada, só carrapichos, rabo de raposa, mandacarus, moitas de jiquiris, coroa-de-frade, facheiro e  faveleiros. Com  o sol se pondo e  a queda da temperatura,  os animais surgem em busca da alimentação e da água. Pedro, muito esperto, começa a atirar com a sua  arma artesanal, acerta uma rolinha, um caga-sebo, um corró e um gola , insatisfeito começa a atirar em calangos e lagartixas, disse que não gosta do balançar das suas cabeças, o Pedro é um menino traquino . Zezinho reclama e diplomaticamente toma a dianteira. Ao aproximarem-se de um dos aceiros da capoeira, enxerga um ninho e comunica ao Pedro, era um ninho de Inhambu, que é conhecida na região como Nambu, os seus ovos são marrons, tais quais são as suas penas, eram cinco no seu total. Zezinho não quis levá-los, porém Pedro bateu o pé e disse que não deixaria os ovos no ninho, ele queria come-los cozidos. Zezinho rebateu:

"Pedim meu irmão, são estes ovos que darão continuidade a existência dos Nambus aqui na terra. Como você,  com a sua traquinagem, não quer deixá-los, vamos fazer um acordo: Ao chegar em casa você fica com dois e eu com três, pois foi eu quem achou o ninho, inclusive    acho que a mãe Nambu não mais voltará para chocá-los, pois você desfez o ninho, cortou o capim e o expôs ao relento, a mãe está desconfiada e temendo a morte".

Pedro retruca com ar de sabedoria  e com o dedo em riste vocifera :

 " Zezinho, você está cheio de leotria e filosofia, depois que mudou de escola, só fala agora em defender a natureza, os animais e até falou que matar as abelhas, as formigas e as borboletas é crime, você está muito diferente. Zezinho, o professor falou na minha escola, que são os países ricos que destroem a natureza,  escravizam as nações pobres e levam tudo de bom para eles. Você sabia que o café bom  e as frutas  boa, enfim tudo que for de bom, os ricos do mundo levam para o estrangeiro e para nós só ficam as borras?

Partiram para casa, Pedro  e Zezinho trocaram ideias mirabolantes.

O Pedro pegou uma caçarola,  cozinhou os dois ovos  e comeu com farinha. O Zezinho viu que na sua casa a galinha estava chocando alguns ovos, quando ela saiu para beber água ou comer alguma coisa, que é rápido e deixou o ninho sozinho, colocou os três ovos  entre os da galinha, não disse nada para a sua mãe e todos os dias ia até o ninho para saber como estavam. Passado 19 dias, os ovos começaram a eclodir, não  é que nasceram dez pintos brancos e  graudos,   três pintos marrons e  pequenos!?  A galinha quando viu a sua ninhada, provavelmente achou estranho, porém andava no terreiro com todos os treze, inclusive cuidava bem dos brancos, porém dava mais atenção aos  pequenos e  marrons. Dividia os grãos de milho, as formigas e farinhas em xerém, para os menores e quando ia se deitar colocava os três marrons em baixo do seu fofo peito. Orientava os maiores para não chatearem os seus pequenos filhotes, todos eram irmãos e mereciam o mesmo cuidado e pedia que protegessem os três menores. Os pintinhos brancos tinham orgulho dos irmãos cor de chocolate,   ficavam impressionados com o talento, a rapidez  e a destreza  de cada um, os pequenos não paravam.

Passado sessenta dias, as férias acabaram,  Zezinho e Pedro voltaram para as suas escolas. O Zezinho chamou o Pedro e  falou:

"Pedim,  vejo que você é inteligente e um dia você vai entender a natureza. Vai conhecer a grande variedade de vidas, vai mergulhar no estudo das raças, das etnias, das matas, dos minerais, dos rios e de tudo que compõe a terra. Veja que a galinha cuidou dos pintos como se todos fossem seus, cuidou sem preconceitos e mostrou aos seus pintinhos brancos como é importante respeitar a diversidade e as suas diferenças."

Diz o pai de Zezinho, que a galinha ficava muito alegre quando via os seus filhotes marrons crescerem, voarem alto,  cantarem com tanta precisão as  lindas melodias.

A família cresceu, os pintos ficaram adultos e começaram a ter os seus filhos. As  Nambus ganharam a capoeira em busca do seu habitat natural, porém,  de vez em quando voltavam para visitar a mãe e cantar para todos os moradores do arraial, eram verdadeiras estrelas da natureza. Uma vez vieram  mais de trinta e fizeram uma contagiante apresentação, neste dia os olhos da galinha  marejavam de tanto orgulho e alegria, era visível o soluçar  do seu cacarejo.  Vinte e nove cantavam e um comandava com maestria, o menor era um tenor de grande valor, tinha música que vinte e  oito paravam, o pequeno soltava a sua contagiante voz e o  maestro conduzia com sabedoria.

Os encontros de família ficaram inesquecíveis para todos. Não saem de suas mente os belos espetáculos  cantados pelo  coral dos Inhambus.

 Foi assim que Zezinho passou as suas férias e junto ao Pedro organizaram um debate na escola com todos os colegas, o Pedim  foi o seu coordenador e escolheu  o assunto :

TUDO PELA NATUREZA. CUIDE DA FAUNA E DA FLORA. CUIDE  DOS MORROS, DOS  RIOS  E DO HOMEM. O MUNDO É DE TODOS E MERECE RESPEITO.

CUIDE DA NATUREZA.

Salcador , 13 de Janeiro de 2025

                                                               Iderval Reinaldo Tenório

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