Era uma vez uma senhora chamada Dona Laura
Era uma vez uma senhora chamada Dona Laura
Dona Laura, Irene, Chumbo e o galo Cirilo.
Era uma vez
uma senhora chamada Dona Laura, na sua vida, a tarefa era fazer guloseimas. No
bolo de puba, doce de leite e pé de moleque, dona Laura era campeã.
Irene e
Francisco eram os seus filhos, o Francisco era apelidado de Chumbo. Não
estudava, não jogava bola, só fazia dá trabalho à mãe. A Irene, totalmente o
contrário, fazia de tudo, além de gostar de estudar, só não jogava
bola.
Dona Laura
tinha uma banca num dos maiores cruzamentos da cidade, vendia de tudo. Quem
passava por sua banca saia com amendoim torrado, cocada de coco e de leite,
além do bolinho do estudante, a banca era a sua empresa. Abria de segunda a
domingo, das 18 às 22 h. Às 21h. Dona Laura reabastecia no fim da noite, pois não poderia
perder as vendas aos casais de namorados que desciam do cinema.
O Francisco azedou, naquela época, o preconceito racial não era evidente como hoje e o seu nome era traduzido para Nego Chumbo, deu pra ruim, era briguento, ninguém sabe o seu paradeiro, falava-se: " Cuidado com o nego Chumbo."
Num
tenebroso domingo dona Laura não colocou a sua Empresa e nem Irene apareceu. Na
segunda o assunto tomou conta da cidade, das escolas, das igrejas e da grande
praça onde a juventude se reunia. No comércio todos perguntavam: E dona Laura!? O que aconteceu?.
9 dias
depois Irene, a filha, deu a fatídica notícia: “Minha mãe morreu”.
No dia do
enterro, o bairro estava em peso no cemitério, além de muitas pessoas de outros logradouros. Dona Laura, um marco da cidade,
havia terminado a sua vida de mãezona de todos.
Deixou de
herança uma mesa de madeira, cinco bancos, três formas de bolos, meia dúzia de
panelas de vários tamanhos, uma chaleira, uma cama de vara, duas malas, duas
redes, dois potes, uma quartinha de barro, meia dúzia de xícaras, colheres,
facas, latas de mantimentos, que são chamadas de bateria, copos e um pintinho
branco, de duas semanas de vida, comprado numa festa agrícola,
realizada pela prefeitura no único clube da cidade. A casa também era
própria, três metros de frente e dez de fundo. Três pequenos cômodos e um quintal, neste
uma pequena casinha, chamada sentina e uma área descoberta para lavar e
estender roupas, que eram poucas.
O pintinho
branco, para ser protegido dos gatos de rua, dormia no quanto com Dona Laura e
Irene. Com a falta de dona Laura, por diversos dias, o Pintinho
entrou em Banzo e Irene teve que o aconchegar mais ainda. Não aceitava comida e
nem água, era alimentado com uma pequena colher de chá e uma seringa de vidro,
depois de trinta dias, o Banzo passou e o animal passou a comer de tudo, tinha
um porém, acompanha a tutora para onde ela fosse, só dormia no seu quarto numa
caixa de madeira improvisada, chamada de cuia de oito.
Irene
reativou a empresa, não mais no ponto original. Botou um café na pequena sala da frente, ficou
famosa pelo gostoso bolo de puba, na Bahia, bolo de Carimã.
O galo
recebeu o nome de Cirilo. O animal cresceu, engrossou as pernas, cresceu as
cristas, afiou o bico, as garras e o esporões, funcionava como o
guardião da casa e da sua tutora, era calado, porém valente.
Todos que chegavam para uma prosa ou uma merenda, o Cirilo, com os seus olhos amarelos queimado e uma grande pupila preta, observava, rodeava duas ou três vezes, olha bem nos olhos, no pisar, no mexer com as pernas, com os braços, com a cabeça, o tom e timbre da voz. O Cirilo lia a intensão, a vontade e as atitudes dos visitantes, sabia quais eram os porquês de entrar na sala da Irene. Depois de avaliar as visitas, o galo com um canto pausado, baixo, rítmico, hesitante e vigilante (como um "có-có-có" abafado e constante), chegava à sua conclusão, se suspeitos e sangue ruim, partia energicamente para defender a tutora e o seu café, era mais valente do que um cão de guarda. Muitas eram as carreiras rua abaixo de alguns desordeiros com má intenção.
Foi assim por mais
de dez anos. De amigo o galo tinha um gato, que era para espantar os ratos da
casa, a sua tutora, os vizinhos e os contumazes frequentadores do café da
Irene. Só fechava a porta e passava os dois ferrolhos, depois que os estudantes do curso noturno
eram liberados, muitos passavam no seu café para saborearem o famoso
Bolo de Puba e uma deliciosa xícara de café.
Quando
Cirilo morreu com mais de 10 anos, de velho, foi a mesma comoção da morte de Dona Laura.
Irene passou a viver de passar roupas de ganho, fazer bolos por encomendas, acabou o
café, o bolo e o galo Cirilo.
Os seus clientes cresceram, alguns viajaram para as capitais para estudar ou morar em definitivo.
Foi assim que viveu dona Laura, Chumbo, Irene e o seu galo Cirilo.
Esta vida é
interessante e muito saudosa
Iderval
Reginaldo Tenório
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