domingo, 14 de junho de 2026

ZEZINHO FAZ UM PEDIDO A PAPAI NOEL

  

Menino Buchudo | Facebook


Crianças nordestinas | Crianças carregam água em embalagem, … | Flickr

ZEZINHO FAZ UM PEDIDO A PAPAI NOEL 

Papai Noel  desejaria saber   onde o senhor mora, a sua profissão  e a sua idade.

Sou José, conhecido como Zezinho, tenho 08 anos de idade e moro em Pirambuí, aqui no nordeste.    Meu pai  é agricultor e trabalha de segunda a segunda. A minha mãe faz a mesma coisa e acho que trabalha mais do que o meu pai. Além de  trabalhar na roça, cuida de tudo.  Lava as  roupas, pratos, panelas, cozinha, cuida dos animais,  das crianças, dos  meus avós e também do meu pai. Não para um único dia, aqui não tem energia elétrica, fogão a gás  e nem água encanada. 

O meu irmão mais velho também trabalha com os meus pais, por ter apenas  12 anos de idade,  o seu trabalho é mais leve.

Aqui em casa todos fazem alguma coisa, os menores vão até os ninhos das galinhas, recolhem os ovos do dia, são poucos, porém nos servem muito, os outros mexem com a  horta.

Acredito que o senhor é  amigo de Deus ou  o próprio.  Sabe porque eu acho?. O senhor é muito rápido e está em todos os lugares do mundo ao mesmo tempo, minha mãe disse que só Deus é onipresente, onisciente e onipotente, igual ao senhor. 

O senhor deve ser  muito rico, pois distribuir presentes  para todos das cidades custa muito dinheiro. 

O meu pai falou  que este ano  a coisa está feia para nós. Os preços das coisas estão muito alto e o que ele planta não tem preço, é muito barato, só dá para comprar a comida e um pouco de misturas( toucinho, jabá e aqui e acolá um taco de carne fresca).  Mesmo assim, ele disse que devemos agradecer a Deus, pois na cidade tem muita gente que nem isso tem para comer, moram nas ruas ou em verdadeiros despenhadeiros, disse que devemos agradecer, porém sem  nos indignar.

Acredito que, se os homens da política olhassem para todos, teríamos uma vida mais digna. Não olham porque não quer, pois conhecem as  dificuldades. 

Meu pai disse, que em todas as cidades tem uma família que manda e desmanda. Quando o pai  fica velho,  coloca o  filho como substituto, depois o neto e até os bisnetos. Inclusive colocam os seus nomes nas ruas, nas praças e nas escolas da cidade, falam que é para se imortalizarem.  

Queria saber  se o senhor tem o nosso endereço, este que está escrito no roda pé desta carta. Serra da Sussuarana,   no sertão dos Inhamuns, Pernambuco, o nome  é em homenagem a um tipo de  onça da região.  

O meu pai tem  55 anos de idade,  disse que nunca viu o senhor por aqui e  que a sua carruagem não circula  por estas bandas, será que é  devido a falta de estrada?  quando chove vira um atoleiro e quando não chove é poeira pura.

Disse que  provavelmente a culpa não é do senhor e sim da pobreza, da ganância dos homens que mandam na  nação e  do egoísmo das grandes nações. 

Falou com tristeza que, estes tais povos desenvolvidos, há  séculos, saqueiam os países pobres, desobedecendo as ordens de Deus.

Afirmou que  trabalha todos os dias.  O que ganha   só dá para comer e com todo este   sacrifício,  ainda    entrega uma parte  graúda  para este tal de governo, que por aqui  nunca passou.

Afirma com tristeza que o senhor só anda nas cidades e os presentes o senhor só entrega nas casas dos ricos.  

Disse que no natal, o senhor envia para os ricos  muitas coisas deliciosas e  com nomes estranhos: Queijos,  Panetones, frangos empacotados, carnes, amêndoas, tortas, pudins, presunto,  frutas cristalizadas e outras guloseimas, além de vinhos e outras bebidas que só  os ricos conhecem.  Pergunto: O Senhor tem algum problema com as pessoas do nosso tipo? Deve ter,  pois nunca passou por nossa casa. Será que é devido sermos pobres e morarmos no campo?

Sei que o senhor é muito ocupado e nunca viajou por estas paragens, porém farei um pedido, se não puder realizar me avise com brevidade.  Eu não quero nada para mim, nem para o meu pai, nem para a minha família, quero para todos da região. 

Mesmo sem saber onde moramos e nem saber onde é o lugar, peço que  fale com o seu amigo Deus.  Ele sabe de tudo, conhece  todos nós, sabe onde moramos e o que estamos passando,  sabe de tudo que acontece na face da terra.

Sem querer chatear ou aborrecer o senhor   e nem  a Deus, peça por nós, pois o meu pai e minha mãe todas as noites rezam por dias melhores.

Eles pedem chuva  para encher os barreiros, molhar o chão, as  plantações, matar a sede, alimentar os homens  e  os animais. Peça  que mande fartura para os povos sofridos dos sertões. 

Um detalhe importante e que ficaríamos muito grato,  que estas chuvas venham para todos que vivem neste sertão, nos outros sertões,  para todas as cidades e florestas do planeta.  

Peço também que diga aos jornalistas que  invertam os seus pensamentos, uma vez que, um  famoso locutor, de uma grande televisão,   disse no jornal  da noite que o tempo seria ruim, pois  iria chover  e no outro dia disse que o tempo seria bom,  iria fazer muito sol e iria dá  praia.

Ele não sabe de nada, acho  que não tem juízo. Não sabe o que é uma lavoura,  uma   criação de animais, acordar com os sapos e as rãs coaxando, os passarinhos saltitantes de alegria, as borboletas voando, os animais correndo nos terreiros e  os vegetais verdes, verdinhos, bem verdinhos, verdinhos  de fazer gosto se preparando para a floração e a frutificação. Acho que não sabe e nem nunca viu as babujas e os capins rasteiros  nas primeiras chuvas. Este jornalista não tem conhecimentos  ou é gente sem tino, ele não sabe o que fala, o pior papai Noel, ele convence o povo, ele fala assim:

 "TEMPO RUIM, VAI CHOVER. TEMPO BOM, VAI FAZER SOL E VAI  DÁ PRAIA" e o povo das cidades acha que  ele está certo.

Papai Noel se o senhor achar  verdadeiro este meu  pedido,  eu e todas as pessoas aqui do sertão ficaremos gratos.   

Nós não queremos e nem precisamos de  presentes. Nem  de bola, carrinhos e nem bonecas, nós sabemos fazer os nossos brinquedos.

Quando o senhor nos visitar, vou fazer  de madeira um carro de boi, a minha irmã, uma  boneca de pano  para os seus filhos,  vamos fazer com muito gosto, não sei se gostarão. Aguardamos esperançosos a sua visita.  

Queria acrescentar outro importante pedido, peça a Deus para colocar Escolas para todas as crianças até  os 18 anos,    bons professores, merenda, livros, fardamentos e transportes, pois aqui no sertão as estradas são péssimas, quando existem. Vou dá uma ideia boa,  as  merendas das escolas  deveriam ser compradas aqui dos nossos agricultores.  

Quando chove tem muito  leite, queijo, feijão, carne, ovos,  frutas, batatas, mel de abelha, milho e outras comidas gostosas.  Os nossos pais  e todos daqui de Pirambui plantam, criam os animais e poderiam   vender para as  prefeituras  e elas mandariam para as escolas.  

PAPAI NOEL,   não se esqueça também de postos de saúde e nem de um hospital para atender o povo da roça e com  bons médicos, pois o  povo daqui pena muito quando está doente.

Peço que coloque o meu endereço na sua agenda,  todos os anos renove o meu pedido, até o dia que não precise mais abusar de sua paciência, pois pedir não é coisa de homem sério.  

Um homem sério faz tudo para viver do seu próprio suor, homem  sério não gosta de nada fácil e nem dado, só  gosta do que vem do  seu   trabalho, só os desonestos praticam estes atos e tem muito neste nosso país, principalmente os políticos enganadores. 

Sei que Deus não gosta de coisas  ruins, porém tem muita gente sem juízo, sem vergonha e que  só pensam em si. Vendem até os pais para melhorar de vida e  enganam as pessoas sem nenhum respeito,  principalmente os mais pobres, e muitos apoiam, meu pai chama de idólatras.  

Este meu pedido é porque não posso interferir  nestas coisas misteriosas, os  fenômenos naturais: ventos, chuvas,  trovões, a vida, outros mistérios que só  Deus entende e controla.

Quando crescer  e tiver a chance de estudar, saberei alguma coisa sobre estes fenômenos. Queria estudar e  dedicar a  vida  por dias melhores para todos. Peço que escute as crianças, elas conhecem as dificuldade dos seus pais e dos seu  amigos. 

Não  se aborreça, não sei falar  com tanta precisão, como  os que pesam que sabe, os bobos aqui da terra, os sabidos que estudaram e  moram nos palácios.  

Eles  não sabem como se planta um pé de feijão, de aipim, de inhame,  de mandioca ou de batata. Não sabem a idade de um cavalo, apenas  olhando os dentes do animal, se vai chover ou vai ter seca quando olham para o céu. Só sabem pelos aparelhos, só sabem falar e comer.  Falam muito e muitos só falam bobagens, deveriam conhecer os sertões e os seus povos.

Não se aborreça, só tenho 08 anos.  Falo pelo povo de PIRAMBUI, dos demais sertões, das pequenas cidades e dos  rincões abandonados. 

Para resumir e ficar mais fácil, peça a Deus para mandar  juízo para todos os homens que dirigem a terra, os daqui e os que moram noutros países.  Não rasgue esta carta e nunca se esqueça do amigo Zezinho.

                           Do menino José, conhecido aqui na roça  como Zezinho.

                              Iderval Reginaldo Tenório

Um destes Zezinhos tem o nome de Natanael Vieira dos Santos, da Cidade do Cedro-Ceará. Hoje Advogado e escritor  em São Paulo.

 Do baiano Assis Valente, de Santo Amaro da Purificação.

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musicaemprosa · Quintal da Saudade · 24 de dez. de 2018

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