
ZEZINHO FAZ UM PEDIDO A PAPAI NOEL
Papai Noel desejaria saber onde o senhor mora, a sua profissão e a sua idade.
Sou José, conhecido como Zezinho, tenho 08 anos de idade e moro em Pirambuí, aqui no nordeste. Meu pai é agricultor e trabalha de segunda a segunda. A minha mãe faz a mesma coisa e acho que trabalha mais do que o meu pai. Além de trabalhar na roça, cuida de tudo. Lava as roupas, pratos, panelas, cozinha, cuida dos animais, das crianças, dos meus avós e também do meu pai. Não para um único dia, aqui não tem energia elétrica, fogão a gás e nem água encanada.
O meu irmão mais velho também trabalha com os meus pais, por ter apenas 12 anos de idade, o seu trabalho é mais leve.
Aqui em casa todos fazem alguma coisa, os menores vão até os ninhos das galinhas, recolhem os ovos do dia, são poucos, porém nos servem muito, os outros mexem com a horta.
Acredito que o senhor é amigo de Deus ou o próprio. Sabe porque eu acho?. O senhor é muito rápido e está em todos os lugares do mundo ao mesmo tempo, minha mãe disse que só Deus é onipresente, onisciente e onipotente, igual ao senhor.
O senhor deve ser muito rico, pois distribuir presentes para todos das cidades custa muito dinheiro.
O meu pai falou que este ano a coisa está feia para nós. Os preços das coisas estão muito alto e o que ele planta não tem preço, é muito barato, só dá para comprar a comida e um pouco de misturas( toucinho, jabá e aqui e acolá um taco de carne fresca). Mesmo assim, ele disse que devemos agradecer a Deus, pois na cidade tem muita gente que nem isso tem para comer, moram nas ruas ou em verdadeiros despenhadeiros, disse que devemos agradecer, porém sem nos indignar.
Acredito que, se os homens da política olhassem para todos, teríamos uma vida mais digna. Não olham porque não quer, pois conhecem as dificuldades.
Meu pai disse, que em todas as cidades tem uma família que manda e desmanda. Quando o pai fica velho, coloca o filho como substituto, depois o neto e até os bisnetos. Inclusive colocam os seus nomes nas ruas, nas praças e nas escolas da cidade, falam que é para se imortalizarem.
Queria saber se o senhor tem o nosso endereço, este que está escrito no roda pé desta carta. Serra da Sussuarana, no sertão dos Inhamuns, Pernambuco, o nome é em homenagem a um tipo de onça da região.
O meu pai tem 55 anos de idade, disse que nunca viu o senhor por aqui e que a sua carruagem não circula por estas bandas, será que é devido a falta de estrada? quando chove vira um atoleiro e quando não chove é poeira pura.
Disse que provavelmente a culpa não é do senhor e sim da pobreza, da ganância dos homens que mandam na nação e do egoísmo das grandes nações.
Falou com tristeza que, estes tais povos desenvolvidos, há séculos, saqueiam os países pobres, desobedecendo as ordens de Deus.
Afirmou que trabalha todos os dias. O que ganha só dá para comer e com todo este sacrifício, ainda entrega uma parte graúda para este tal de governo, que por aqui nunca passou.
Afirma com tristeza que o senhor só anda nas cidades e os presentes o senhor só entrega nas casas dos ricos.
Disse que no natal, o senhor envia para os ricos muitas coisas deliciosas e com nomes estranhos: Queijos, Panetones, frangos empacotados, carnes, amêndoas, tortas, pudins, presunto, frutas cristalizadas e outras guloseimas, além de vinhos e outras bebidas que só os ricos conhecem. Pergunto: O Senhor tem algum problema com as pessoas do nosso tipo? Deve ter, pois nunca passou por nossa casa. Será que é devido sermos pobres e morarmos no campo?
Sei que o senhor é muito ocupado e nunca viajou por estas paragens, porém farei um pedido, se não puder realizar me avise com brevidade. Eu não quero nada para mim, nem para o meu pai, nem para a minha família, quero para todos da região.
Mesmo sem saber onde moramos e nem saber onde é o lugar, peço que fale com o seu amigo Deus. Ele sabe de tudo, conhece todos nós, sabe onde moramos e o que estamos passando, sabe de tudo que acontece na face da terra.
Sem querer chatear ou aborrecer o senhor e nem a Deus, peça por nós, pois o meu pai e minha mãe todas as noites rezam por dias melhores.
Eles pedem chuva para encher os barreiros, molhar o chão, as plantações, matar a sede, alimentar os homens e os animais. Peça que mande fartura para os povos sofridos dos sertões.
Um detalhe importante e que ficaríamos muito grato, que estas chuvas venham para todos que vivem neste sertão, nos outros sertões, para todas as cidades e florestas do planeta.
Peço também que diga aos jornalistas que invertam os seus pensamentos, uma vez que, um famoso locutor, de uma grande televisão, disse no jornal da noite que o tempo seria ruim, pois iria chover e no outro dia disse que o tempo seria bom, iria fazer muito sol e iria dá praia.
Ele não sabe de nada, acho que não tem juízo. Não sabe o que é uma lavoura, uma criação de animais, acordar com os sapos e as rãs coaxando, os passarinhos saltitantes de alegria, as borboletas voando, os animais correndo nos terreiros e os vegetais verdes, verdinhos, bem verdinhos, verdinhos de fazer gosto se preparando para a floração e a frutificação. Acho que não sabe e nem nunca viu as babujas e os capins rasteiros nas primeiras chuvas. Este jornalista não tem conhecimentos ou é gente sem tino, ele não sabe o que fala, o pior papai Noel, ele convence o povo, ele fala assim:
"TEMPO RUIM, VAI CHOVER. TEMPO BOM, VAI FAZER SOL E VAI DÁ PRAIA" e o povo das cidades acha que ele está certo.
Papai Noel se o senhor achar verdadeiro este meu pedido, eu e todas as pessoas aqui do sertão ficaremos gratos.
Nós não queremos e nem precisamos de presentes. Nem de bola, carrinhos e nem bonecas, nós sabemos fazer os nossos brinquedos.
Quando o senhor nos visitar, vou fazer de madeira um carro de boi, a minha irmã, uma boneca de pano para os seus filhos, vamos fazer com muito gosto, não sei se gostarão. Aguardamos esperançosos a sua visita.
Queria acrescentar outro importante pedido, peça a Deus para colocar Escolas para todas as crianças até os 18 anos, bons professores, merenda, livros, fardamentos e transportes, pois aqui no sertão as estradas são péssimas, quando existem. Vou dá uma ideia boa, as merendas das escolas deveriam ser compradas aqui dos nossos agricultores.
Quando chove tem muito leite, queijo, feijão, carne, ovos, frutas, batatas, mel de abelha, milho e outras comidas gostosas. Os nossos pais e todos daqui de Pirambui plantam, criam os animais e poderiam vender para as prefeituras e elas mandariam para as escolas.
PAPAI NOEL, não se esqueça também de postos de saúde e nem de um hospital para atender o povo da roça e com bons médicos, pois o povo daqui pena muito quando está doente.
Peço que coloque o meu endereço na sua agenda, todos os anos renove o meu pedido, até o dia que não precise mais abusar de sua paciência, pois pedir não é coisa de homem sério.
Um homem sério faz tudo para viver do seu próprio suor, homem sério não gosta de nada fácil e nem dado, só gosta do que vem do seu trabalho, só os desonestos praticam estes atos e tem muito neste nosso país, principalmente os políticos enganadores.
Sei que Deus não gosta de coisas ruins, porém tem muita gente sem juízo, sem vergonha e que só pensam em si. Vendem até os pais para melhorar de vida e enganam as pessoas sem nenhum respeito, principalmente os mais pobres, e muitos apoiam, meu pai chama de idólatras.
Este meu pedido é porque não posso interferir nestas coisas misteriosas, os fenômenos naturais: ventos, chuvas, trovões, a vida, outros mistérios que só Deus entende e controla.
Quando crescer e tiver a chance de estudar, saberei alguma coisa sobre estes fenômenos. Queria estudar e dedicar a vida por dias melhores para todos. Peço que escute as crianças, elas conhecem as dificuldade dos seus pais e dos seu amigos.
Não se aborreça, não sei falar com tanta precisão, como os que pesam que sabe, os bobos aqui da terra, os sabidos que estudaram e moram nos palácios.
Eles não sabem como se planta um pé de feijão, de aipim, de inhame, de mandioca ou de batata. Não sabem a idade de um cavalo, apenas olhando os dentes do animal, se vai chover ou vai ter seca quando olham para o céu. Só sabem pelos aparelhos, só sabem falar e comer. Falam muito e muitos só falam bobagens, deveriam conhecer os sertões e os seus povos.
Não se aborreça, só tenho 08 anos. Falo pelo povo de PIRAMBUI, dos demais sertões, das pequenas cidades e dos rincões abandonados.
Para resumir e ficar mais fácil, peça a Deus para mandar juízo para todos os homens que dirigem a terra, os daqui e os que moram noutros países. Não rasgue esta carta e nunca se esqueça do amigo Zezinho.
Do menino José, conhecido aqui na roça como Zezinho.
Iderval Reginaldo Tenório
Um destes Zezinhos tem o nome de Natanael Vieira dos Santos, da Cidade do Cedro-Ceará. Hoje Advogado e escritor em São Paulo.
Do baiano Assis Valente, de Santo Amaro da Purificação.
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