domingo, 10 de maio de 2026

Um pedido de minha mãe. cumprido 12 anos depois.

 



                                           Vídeo acima 


                         Por Iderval Reginaldo Tenório

         Mamãe pediu que fizesse um pedido a Deus.

                         Assim me pronunciei

Outro   dia, andando na praia, para  limpar  a cabeça dos entraves da vida, fui apanhando conchas do mar, torceras de capim rasteiro e bons punhados de areia, era natá.

Em casa, no canto da sala, em homenagem ao menino Jesus, construí um pequeno presépe. 

Aproveitei bonecos de plásticos,  caixas de sapatos, mudas de pé de roseiras e um velho saco de cimento, que pelo averso, fica iguá a  uma caverna de pedras, iguá a que nasceu o menino Jesus.

Fiz o  presépe e iluminei com uma vela de cera de carnaúba. Fui me deitar, já era tarde da noite.

De madrugada, surgiu uma voz e perguntou:.  Quem fez este presépe? Repetiu duas ou três veis.

Cum     medo e   desconfiado, nuca ganhei nada de ninguém, indaguei. Quem está perguntando, a este pobre trabaiador.  

A Voz fala-

Inhô fie. Inhô Pai quer saber quem fez o presépe.  

Mesmo desconfiado respondi: 

Foi Eu, Nhô Bento, por que? O que fiz de errado? sou homem simples.

Nada Nhô Bento. Inhô Pai gostou, achou tudo certo e quer  lhe recompensar. Disse que você pode pedir o que quiser.

Parado fiquei a matutar, acanhado falei em voz baixa: Diga a Ele que Eu, Nhô Bento,  não quero mais  viver nesta vida de  pobreza, quero ser muito  rico.

Peço  um caminhão baú dos grandãos, 7 metros de comprimento, 3 de artura e 3 de largura,  impiado  de dinheiro, só  notas de duzentos, instalando de nova.

 

Vou comprar um fazendão, prantar 10  mil pés de café, um coqueiral, cacau, roças de feijão, mii,  argudão, mandioca, arroz e  um canaviá de  10mil tarefas, casa de farinha, queijaria e ingem de cana.

Vou comprar  10mil cabeças de gado, cavalo, bode, peru e  muitas galinhas.

 

Vou construir um açudão, de três légua, pra criar peixes, camarão e ser visitado por todos os tipos aves. Vou fazer um instradão daqui até a cidade. 

Vou gastar, gastar, gastar e nunca vai acabar. Vou lavar os pé e me banhar com alfazema,  usar prefume francês, como as madames, vou comprar chapéu de massa,  dez palitó e comer do bom e do mió.

Vou usar muita pomada pra afinar a pele, vou  arranjar seiscentas namoradas e viajar por esse mundão de meu Deus.

Pra dinheirama não mofar, vou espaiar  no terreiro pra tomar sole, vou  sentar num banquinho só pra contar as peles.

Ao levantar as vistas, notou que o menino Jesus ficou triste.

A sua reação foi de imediato, fechou os olhos,  parou o pedido e pensou, só para si:

E se acontecer uma empidimia e outras doenças e matar os animá? E se vier um incêndio e uma grande ventania e queimar as prantação e o dinheiro, e se a água do açúdão se contaminar e também aparecer um buraco no fundo, acabar as águas   e matar tudo que veve dentro dele? E  se Eu por acauso  cair doente e ficar inriba de uma cama, paralizado e firidento, comendo e fazendo as necessidades com o  auxílio dos outros, i ser tratado cum nojo ?  Di que adianta tanta riqueza.?

Miou o Inhô Fie e se pronunciou.

Inhô Fie, diga a Inhô Pai, qui tudo qui falei  foi brincadeira, foi deliro.

Diga que não quero nada, pobre qui trabalha com dignidade tombém veve feliz com sua famía.

Diga que peço  saúde para criar os meus fios, tanto para eu como para todos os cidadãos do praneta.

Peço que mande chuva, boa lavoura para todos, escolas, hospitá, juízo para os políticos e qui não suma com  o dinheiro do povo, e que haja justiça.

Nós num quer ser rico Nhô Fie, nós quer é ser respeitado, visto e merecedor de tudo que um ser humano precisa para viver bem.

Nós, os animá, a terra, as prantas  e os fenomenos da natureza.

O principal Inhô Fie, é que o Inhô Pai acabe com a desigualdade social entre os homens. E que  a riqueza, Inhô Fie, deva ser alcançada por   todos, pois todos são irmãos e fie de Deus, nós quer as coisas com o suor do nosso rosto, nós quer  trabalho.

Quando acordou e chegou até a sala, o menino Jesus estava sorrindo, piscando os olhos,  balançando os braços e as pernas de alegria.

Ao abrir a porta, corria um vento frio, o céu estava carregado de nuvens cinzas e uma chuva fina começou a molhar o chão.

Água para   alimentar a lavoura, os homens, os animá e a terra.

Neste ano foi um ano de fartura.

Inhô Bento vestiu a surrada camisa, foi para o terreiro, levantou os braços para o céu e cheio de gratidão falou:

Viver na terra só é bom, se a vida for boa para todos, todos merecem uma vida sem muito aperreio. Ninguém Inhô Fie, é mió do que outro, nós pobre tombém merece viver em paz.

Iderval Reginaldo Tenório



                                           Vídeo acima



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