segunda-feira, 4 de maio de 2026

Uma família nordestina do polígono da seca, Zezinho na caatinga.

 

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                                12, 09, 06 e 3,5 anos de idade

Uma família nordestina do polígono das secas, Zezinho na caatinga. Como são diferentes a infância de cada cidadão. É nesta fase que se forja  um verdadeiro homem.

Quando a  infância foi vivida com felicidades e amor, merece ser revivida em todas as outras fases da vida.

Muitos insistem em ministrar aulas sobre os nordestinos, sem nada saber das  variedades e das diversidades da vida, é preciso viver e sentir.

   

Seu José acordava às 4 h, ainda noite, fim da madrugada. Dona Maria, a matriarca, antes do galo carijó cantar e o jumento relógio zurrar,  já estava de pé. Café pronto, boas tapiocas e ovos estrelados na manteiga de garrafa.

O gato mimoso, a gata ceguinha, as cadelas baleia, piaba e a  peixinha a margearem a grossa porta da cozinha, ao ouvirem o bater dos trens(teréns), da retirada da tramela,  a voz  e o cheiro da matriarca.  

Enxada nas costas, chapéu de palha na cabeça, camisa branca, mangas compridas, calça de cáqui,  alpercata de couro cru, solado de pneu de caminhão, facão colino(collins) na cintura e uma cabaça cheia d’agua barrenta, o patriarca   tomava o rumo da roça de mandioca.

Quando  o sol entrava pelas brechas da janela, as crias  acordavam, uma por uma.  As mais novas precisavam de leves  balanços, no punho de sua  rede, para despertarem, mesmo recebendo lufadas de encanados  ventos frios e a grande claridade ao abrir as janelas.

Dobravam-se as redes, no seu miolo, o azul lençol de saco, lavado com pedra anil. Faziam-se  trouxinhas, como se enrola um cordão num carretel e ancoravam-nas abaixo dos armadores, cada cria respondia por sua rede. Lavavam o rosto , numa bacia de alumínio, e escovavam os dentes, cada um tinha direito a meio litro d'agua, este   precioso líquido escasso no Nordeste. A toalha era a mesma, daí a grande proliferação de uma doença ocular chamada tracoma. *1

Depois, tomavam  o café, semelhante ao do seu José, e a partir  daí, iniciava-se mais um  dia de labuta. 

Os maiores iam para a roça ajudar o genitor, tarefa produtiva, e os demais, tarefas mais leves, as reprodutivas, as domésticas.  Enchiam os potes, colhiam lenha, catavam o feijão, cortavam o toucinho, iam ao chiqueiro dos porcos,  levavam milho, farinha e  água para os animais; jogavam  milhos e enchiam  os velhos vasilhames, com água dos barreiros, para as galinhas soltas no quintal. Enquanto isso, dona Maria ia até a capoeira pegar ovos das galinhas-d’angola( GUINÉS), que sempre põem distante  da casa, para depois  pegar no  galinheiro do quintal os das galinhas carijós, comuns em todo o nordeste.   

Após cada um cumprir a sua tarefa, uns varriam o terreiro, outros pegavam as  suas baladeiras para caçar rolinhas,  fabricar os seus brinquedos ou brincar com os animais. As meninas inventavam de  fazer doce de leite e outras a remendarem calças, camisas, blusas, redes, calções e  lenções.

Sol a pique, perpendicular ao mourão de amarrar cavalos, vento quente e redemoinhos a varrerem o terreiro, o relógio da natureza, o sol,    marcava 12 h. Seu José voltava da roça com os dois ou três filhos maiores e todos iam sentar nos seus tamboretes redondos, ao redor duma mesa  de madeira de   10 lugares,  cadeiras só nas cabeceiras. 

Com seu José na cabeceira, vinha o almoço. Para os menores, dona Maria já trazia os pratos feitos, o feijão e a mistura  nos seus pratos esmaltados, para os maiores e o genitor, uma tirrina funda, bem cuidada, cheia de feijão no centro da mesa, a mistura noutro utensílio. 

Os pratos eram de porcelana, todos usavam  colheres. Era comum alguns perguntarem :   

“Mamãe, tem caldo? bote um pouquinho pra mim e tome farinha( HOJE, PRA EU)."   

Ao término, uma rapadura, um doce de leite, de banana ou gergelim e um copo d'água, era costume para todos, uma xícara de café para atiçar o cérebro, assim falavam os genitores.

Eram as melhores férias  depois de 04 meses de escola no CARIRI CEARENSE. 

Das 10  crias, 07 concluíram o curso superior, os demais, devido o casamento, um abandonou o curso de economia no primeiro ano e os outros dois  completaram o curso médio. 

Como seu José e dona Maria acreditavam muito  na escola,  das  suas dezenas de netos,  90% concluíram ou estão concluído o curso superior.   

A vida é a vida, viva seu José, viva dona Maria e viva as grandes roças de  mandioca para o fabrico da goma e da farinha. 

Estes ensinamentos eles passaram para os irmãos e todos os seus sobrinhos. São imortais. 

Viva a Chapada do Araripe, o meu Pernambuco e o meu Ceará.   

                        Assim se pronunciavam para todos :

"No futuro nem os animais pegaram peso. Estudem para que a caneta substitua a foice e a enxada; as capoeiras e as roças sejam trocadas pelos cadernos e livros, é o cérebro o grande comandante  a vida. Cuidem deste órgão pensante. São das ideias que os homens viverão com mais tranquilidade. Estudem,  cultivem e valorizem o  cérebro."  

                         Seu José e dona Maria.

       Salvador,03 de Maio de 2026

                             Iderval Reginaldo Tenório

O tracoma é uma infecção ocular crônica e contagiosa causada pela bactéria Chlamydia trachomatis, sendo a principal causa infecciosa de cegueira evitável no mundo. Afeta principalmente crianças em áreas com saneamento precário e falta de água, causando conjuntivite e, se não tratada, cicatrizes que levam à cegueira

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