quinta-feira, 19 de março de 2026

O ESTUDANTE, A VIAGEM E O MISTERIOSO RÁDIO DE PILHA.

                                                                                

                                                    


   



                                       


                                       UM ESTUDANTE

 E

 O RÁDIO TRANSGLOBE

Junho de 1978, segundo ano de medicina, UFBA .

 

Estudar na Bahia e em Pernambuco sempre foi o sonho de todos os jovens dos sertões nordestinos, não diferente para  o tabaréu Zezinho, oriundo  das plagas do Sul do Ceará e   cada dia mais capiau. 

Nas férias, era de praxe visitar os parentes, os amigos e o seu torrão natal, notadamente a Chapada do Araripe.

Transporte precário, dois trechos a percorrer. Quinhentos  quilômetros de poeira e mais quinhentos de semiasfalto. Pegava-se um ônibus da Viação Pernambucana em Juazeiro do Norte até Juazeiro da Bahia, saia do Ceará as 8h da manhã e chegava em solo baiano as 20h. 

Para prosseguir de   Juazeiro da Bahia  para Salvador, 8 horas de espera ao relento,  embaixo das carcomidas marquises da agência da Viação São Luiz, à margem do Rio São Francisco. Os portões de aço, de enrolar, só  abriam às 5 da manhã. O barulho do ranger e do bater dos portões  eram tão alto que acordavam os passageiros que dormiam nas calçadas, todos corriam ao guichê para comprar a passagem.   

O frio era de quebrar os dentes e de  endurecer os músculos. Sacos, sacolas, malas, caixas amarradas com cordas de  agave a ocupar a estreita calçada e  encostadas  nas paredes azuis pintadas a tinta óleo. Os donos dormiam sobre as suas bagagens, as crianças usavam casacos chamados de  japonas, muitas cobertas até a cabeça.

Colado à agência, uma longa e estreita cantina  interligada ao vão principal, porém tinha uma entrada independente, virada para a rua lateral. Ao conseguir a passagem, as pessoas corriam ao seu balcão e saboreavam pães, salsichas, mortadelas, ovos estrelados, sucos e  caldos diversos.  Quebra jejum de acordo com as  suas posses. Era comum, mães com criança de braço, solicitarem a cozinha para fazer o seu mingau, gentilmente atendidas.

12 horas de viagem no primeiro trecho, Juazeiro do Norte-Juazeiro da Bahia, devido as esburacadas estradas,   as diversas paradas, para o sobe e desce  de   passageiros, o chamado pinga-pinga,   além das oficiais, nas pequenas agências e postos de gasolina, vilarejos e   restaurantes para a alimentação dos motoristas e dos passageiros. O segundo trecho, pelos mesmos motivos, mais 12 horas de sacolejos.

 

                                O RETORNO   

O retorno iniciava-se pela Viação  São Luiz, Salvador/Petrolina, com uma parada na agência de Juazeiro da Bahia. 

Em Petrolina, fim de linha da São Luiz, era realizada uma    baldeação com a Viação Pernambucana até Juazeiro do Norte. A diferença era que, a volta era recheada de alegrias e aconchegos.  

Era a volta da Asa Branca a cortar a esturricada e  cinzenta  caatinga, em busca de energias com os entes queridos. Os familiares, a  namorada interiorana,  os colegas do curso básico, os experientes idosos,   os amigos de infância, os artistas de rua,  a culinária, o folclore, os mendigos, os pagadores de promessas, os pseudoloucos, os vendedores ambulantes, os anunciadores de promoções, nas diversas lojas comerciais, regadas a trios de forró, como também as escolas e principalmente os que lhe deram régua e compasso, os abnegados professores.

Janelas abertas, ventos causticantes, balanço para um lado,  para  o outro e a renovação constante  dos passageiros.  Em cada parada,  compras de queijos e doces de leite,  e para saciar a sede e refrescar o corpo, saborosas tubaínas geladas. Assim, flutuava   singrando  sertão adentro a velha nau,  em busca do ninho familiar, em busca da terra prometida, a Jerusalém do Nordeste.

                                                  II

                                        Ao assunto

                       Zezinho de volta ao seu  reduto.

                      Salvador -Juazeiro do Norte

Nau da  Viação São Luiz, carroceria Marcopolo, rumo a Petrolina com uma  parada em    Juazeiro da Bahia. Quarta-feira, 8h   da noite, 21 de junho de 1978. Como bagagem uma surrada bolsa de couro curtido, macio e cor amarela,  ainda guardada como  relíquia. Dentro, mudas de roupas, canetas, caderno e muitas fitas do Bonfim.

Corpo em Salvador e  a cabeça no Cariri, 990 Kms de estrada. No expresso 12 horas de viagem, no comercial, tempo dobrado.

Chega-se em Juazeiro da Bahia  as 08h, sol brilhante e céu azul, nesta paragem descem alguns passageiros, quase todos trabalhadores da Barragem Sobradinho, o maior lago artificial do Brasil.  O imponente gigante da São Luiz, para terminar a sua viagem, atravessa a Ponte Presidente Eurico Gaspar Dutra, inaugurada no dia 16 de junho de 1954, dois meses antes da morte do Presidente  Getúlio Vargas, 24 de agosto de 1954.

Chega-se em Petrolina,  onde  será feito a baldeação com a empresa cratense,  Viação Pernambucana. Condução  oriunda da  capital Paulista com mais de 28 horas de estrada. Ônibus  cheio de cearenses,  pernambucanos, alagoanos e paraibanos em busca da terra do Padim Ciço, Juazeiro do Norte   

Às 10h, adentra ao terminal de Petrolina,  ônibus azul,    carroceria Caio Norte e bandeira indicando -  SÃO PAULO -JUAZEIRO DO NORTE. 

Veículo longo, para-brisas amplo e  empoeirado,  lotado  com Josés, Marias, Terezinhas, Ciços, Lourdes, Franciscas   e Toins.  Homens, mulheres e crianças, todos   saltitantes com destino à terra prometida, abarrotados de presentes para os parentes e felizes por se sentirem gente, e pelo retorno às suas raízes. 

O coração  do Zezinho chega a palpitar, significa o seu Ceará, o seu Pernambuco,  o Cratinho  de açúcar, seu  Juazeiro do Norte e a sua Chapada do Araripe. 

Os passageiros descem para desempenar as pernas, lavar o rosto, comer um grude, fazer as necessidades fisiológicas, trocar uma  muda de roupa e comprar pães, bolachas, doces ou tomar um caldo de mocotó.

Nesta Rodoviária dar-se uma lavada geral no ônibus, principalmente no sanitário para prosseguir o trecho principal, Petrolina -Juazeiro do Norte.

O veículo é um verdadeiro rasgador dos sertões, não poderia quebrar nas empoeiradas  e desérticas rodagens, asfalto de  verdade aqui e acolá. Eram as  grandes crateras, as responsáveis pela pouca velocidade e o aumento do tempo de viagem.

Dentro do ônibus, Zezinho já se sentia em casa, sentia-se dentro do coração do cariri, era apenas questão de 10 a 12 horas. Esperava  por este momento para  abraçar os parentes e pedir a benção a meu  Padim Ciço. Foi aboletado numa das cadeiras colada   a uma janela, visão geral do bioma familiar  que nascera. 

Todos acolhidos  na nave azul  da Viação Pernambucana. Com os   olhos cheios de alegrias e o coração   a  bater-  meu cariri, meu cratinho, meu juazeiro, minha serra do araripe e tum tum tum, meu Pernambuco e  meu  Ceará. O cheiro forte e o sotaque  dos conterrâneos atiçavam as  memórias olfativas e auditivas do  introspectivo passageiro. Mais um nordestino a engrossar o caldo da saborosa viagem.

Zezinho não  teve cadeira numerada, ocupou uma de outro passageiro que desceu  em  Petrolina, da longa viagem de São Paulo. Não possuía bagagens, apenas a surrada bolsa de couro cru, macia e  amarela,  aconchegada no porta malas no teto,  ao alcance dos seus olhos. O veículo deu partida ao paraíso caririense. Para o  estudante,  voava e flutuava, tangenciando o solo pernambucano.

Sob o causticante  sol, as lufadas ardentes e empoeiradas dos ventos,  as miragens e  a caatinga, o ônibus tomou o seu rumo. Aqui e acolá jumentos,  bodes,  vacas magras, cães esguios, casas de taipa,  sitiantes a limpar as suas roças, cercas de varas,   idosos e idosas,  mulheres buchudas com  latas na cabeça,  crianças barrigudas, jovens com inchadas e pás a tapar os buracos da rodovia Senador Nilo Coelho, em busca de uns trocados,   urubus e gaviões à espreita de uma caça,   eram as únicas paisagens dos viajantes.


                                        III

                                 A VIAGEM

Passada meia hora de estrada, um senhor com mais de setenta anos de idade  gritou: 

" Meu rádio Transglobo sumiu, roubaram meu rádio". 

A esposa com idade semelhante complementou:

" Só entrou um passageiro novo no ônibus". 

Outra senhora esbravejou: 

"De São Paulo até aqui nada aconteceu, só foi entrar um passageiro, o rádio de pai sumiu". 

Uma   senhora, ainda moça, gritou

" Chofer, pare no posto rodoviário para fazer uma revista no ônibus. Só entrou um rapaz novo em Petrolina. Tem que revistar, chama a polícia". 

A gritaria foi geral: 

"Pare motorista no posto rodoviário e chame o guarda"

No primeiro posto fiscal, o ônibus pousou, beirava  12h,  sol a pique a brilhar no céu azul, sem nenhuma nuvem. O Motorista desceu, falou com o agente do Posto Rodoviário, fez  a queixa e aguardou a revista dos passageiros.

Entraram três agentes, fardas caqui e logomarca da Polícia Rodoviária Federal (PRF),  a gritaria foi geral: 

"Seu guarda,  só entrou um passageiro em Petrolina".  

O velho ganhou força, não mais falava, gritava: 

"ROUBARAM O MEU RÁDIO  E TEM QUE APARECER, É UM TRANSGLOBE PHILCO FORD, COM PILHAS RAYOVAC". 

A esposa foi logo apontado para o novo passageiro.

Um Policial Federal o identificou, perguntou o que fazia, o seu nome, onde morava e de qual família era.   O jovem seguro nas palavras, mostrou a sua carteira de estudante de medicina bem discriminada  : Retrato colorido, cabelos pretos,  nome dos pais, número da matrícula, data do nascimento, brasão da UFBA e o seguinte escrito: 

Acadêmico de Medicina da Universidade Federal da Bahia, 2º Ano.   

O  agente falou alto: 

" O homem é doutor e de família boa do Juazeiro do meu Padim Ciço, é de família descente".

A decisão foi  voltar para a rodoviária de Petrolina para resolver a delicada demanda. O velho resmungava, a velha não parava de falar e os outros confirmavam. 

"O rádio tem que aparecer, tem que dá queixa no posto policial. Só existe  um suspeito, o novo passageiro que entrou em Petrolina". 

Ao chegar à Rodoviária, o preposto da empresa portando um velho rádio preto falou:   

" Motorista, quando o ônibus chegou de São Paulo e   foi para a garagem para a higienização, foi retirado este rádio    para não molhar, quando vocês saíram foi que o responsável notou que havia ficado aqui na agência "

Como uma ducha fria, todos calaram a boca. Grande foi a decepção e muitos foram os  pedidos de desculpas. A velha não parava de falar:  

" Só havia entrado um passageiro e depois o rádio sumiu, a suspeita era correta, não podemos fazer nada, a não ser pedir desculpas".

Zezinho chegou em casa são e salvo. Contou esta história aos parentes, amigos e principalmente para os seus pais. Episódio este que ficou na história.

Relata  que ficou gravado na sua memória as elucubrações dos passageiros :   

"  Roubaram o meu rádio " ,  "Só entrou um passageiro novo ", " Tem que ser feito uma revista no ônibus", Tem que dá queixas no posto policial."

"SÓ ENTROU UM PASSAGEIRO  EM PETROLINA "  

Naquela época, médicos e estudantes de medicina eram respeitados em todo o nordeste brasileiro.  

Iderval Reginaldo Tenório


 "Só eu sei. As esquinas por que passei

Só eu sei, só eu sei. 

Sabe lá o que é não ter e ter que ter pra dar". Djavan

                                              

5:32
Áudio oficial de "Esquinas" do Djavan. Ouça nas plataformas digitais no álbum "Lilás": https://SME.lnk.to/DjavanLilas Se inscreva no canal ...
YouTube · DjavanVEVO · 13 de set. de 2020

 

3 comentários:

Anônimo disse...

Muito boa crônica

iderval.blogspot.com disse...

Dr.jamoacy. Prezado Iderval
Já fiz essa viagem, do Crato a Juazeiro da Bahia, de ônibus, tinha uma namorada no Crato. Chegando e Juazeiro, tinha uma espera de várias e várias horas para poder continuar a Salvador. Aí tinha um colega em Juazeiro, que procurei, fui para casa dela, tomei banho, jantei, descansei, passei na orla do São Francisco e depois, ônibus para Salvador.
Abraço para você.

iderval.blogspot.com disse...

Dr Jefferson. Que maravilha de crônica!!
Relatos impressionantes que traduzem a bravura dos nossos nordestinos.
Parabéns meu amigo.
Obrigado por mais essa pérola de artigo.
Continue sempre nos brindando com essa veia poética!