domingo, 15 de março de 2026

DONA MARIA, O MÉDICO RESIDENTE E O ALMOÇO

 





DONA MARIA, O MÉDICO RESIDENTE E O ALMOÇO 

Hospital Roberto Santos, SESAB,1986, Salvador Bahia.
Médico Residente de Cirurgia Geral


                           Hora do   almoço-

Dona Maria era uma das funcionárias de um grande  hospital da Bahia, trabalhava na cozinha, era uma funcionária terceirizada.  

Na rampa do restaurante,  colocava os alimentos nas bandejas de aço dos comensais, utensílios estes  divididos em 04 ou 05 compartimentos.

Neste dia  seria servido, como complemento, cubinhos de abóboras, por sinal muito gostosos, principalmente  quando untados na manteiga.

Eu na fila, bandeja na rampa e do outro lado dona Maria. Senhora pícnica, rosto redondo, olhos atentos,   braços curtos e voz estridente, beirava os 50 anos, porém com a aparência dos  60.  Roupa comum, um grande jaleco branco por cima, touca na cabeça e luvas de polietileno incolor.

Fila longa, cada um dos comensais  com a sua bandeja tangenciando a bancada de aço.

No outro lado do balcão, três senhoras a servir os alimentos e  a fila a andar.  Dona Maria, defronte da sua cuba,  pergunta ao comensal da vez, este que vos fala:  " Quer abroba dotô Reginaldo, o sinhô quer abroba na manteiga ?" Já com a concha cheia de cubinhos a despejar na minha bandeja.


Na fila, muitos residentes, enfermeiras e  funcionários à escuta. Modéstia à parte, era eu o único Residente Cearense do Hospital, o mais simples e o mais nordestino da turma. Dona Maria e todos os funcionários tinham uma grande identificação com este mortal.  O Hospital era uma verdadeira família, o meu apelido era: O irmão Dulce do Roberto Santos.

Olhei para Dona Maria e respondi num tom de brincadeira, com a minha bandeja à espera da gostosa Cucurbitaceae e assim me pronunciei após  os cubinhos serem colocados  na minha bandeja

 "Dona Maria,  na minha terra,  na Serra do Araripe, lá  no meu  Ceará, terra do Padre Cícero,  quem come abóbora é porco". 

Dona Maria não contou conversa e nem titubeou, na bucha, na lata, sorriso no rosto e em tom de gozação  emendou:

"Aqui tumem dotô, aqui tumem,  quer mais um pouco?"

Não ficou nenhum funcionário que não caísse na risada

Foi assim os melhores dias naquela casa,  que era uma verdadeira família. 

No café da manhã, os colegas sempre desciam comigo para o refeitório, tinham certeza que algo diferente existia, precisamente fatias de queijos e uma boa manteiga.

               Iderval Reginaldo Tenório

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YouTube · Belchior - Topic · 21 de jul. de 2018


Um comentário:

Anônimo disse...

Muito bacana o relato👏👏👏👏.