
12, 09, 06 e 3,5 anos de idade
Uma família nordestina do polígono das secas, Zezinho na caatinga. Como são diferentes a infância de cada cidadão. É nesta fase que se forja um verdadeiro homem.
Quando a infância foi vivida com felicidades e amor, merece ser revivida em todas as outras fases da vida.
Muitos insistem em ministrar aulas sobre os nordestinos, sem nada saber das variedades e das diversidades da vida, é preciso viver e sentir.
Seu José acordava às 4 h, ainda noite, fim da madrugada. Dona Maria, a matriarca, antes do galo carijó cantar e o jumento relógio zurrar, já estava de pé. Café pronto, boas tapiocas e ovos estrelados na manteiga de garrafa.
O gato mimoso, a gata ceguinha, as cadelas baleia, piaba e a peixinha a margearem a grossa porta da cozinha, ao ouvirem o bater dos trens(teréns), da retirada da tramela, a voz e o cheiro da matriarca.
Enxada nas costas, chapéu de palha na cabeça, camisa branca, mangas compridas, calça de cáqui, alpercata de couro cru, solado de pneu de caminhão, facão colino(collins) na cintura e uma cabaça cheia d’agua barrenta, o patriarca tomava o rumo da roça de mandioca.
Quando o sol entrava pelas brechas da janela, as crias acordavam, uma por uma. As mais novas precisavam de leves balanços, no punho de sua rede, para despertarem, mesmo recebendo lufadas de encanados ventos frios e a grande claridade ao abrir as janelas.
Dobravam-se as redes, no seu miolo, o azul lençol de saco, lavado com pedra anil. Faziam-se trouxinhas, como se enrola um cordão num carretel e ancoravam-nas abaixo dos armadores, cada cria respondia por sua rede. Lavavam o rosto , numa bacia de alumínio, e escovavam os dentes, cada um tinha direito a meio litro d'agua, este precioso líquido escasso no Nordeste. A toalha era a mesma, daí a grande proliferação de uma doença ocular chamada tracoma. *1
Depois, tomavam o café, semelhante ao do seu José, e a partir daí, iniciava-se mais um dia de labuta.
Os maiores iam para a roça ajudar o genitor, tarefa produtiva, e os demais, tarefas mais leves, as reprodutivas, as domésticas. Enchiam os potes, colhiam lenha, catavam o feijão, cortavam o toucinho, iam ao chiqueiro dos porcos, levavam milho, farinha e água para os animais; jogavam milhos e enchiam os velhos vasilhames, com água dos barreiros, para as galinhas soltas no quintal. Enquanto isso, dona Maria ia até a capoeira pegar ovos das galinhas-d’angola( GUINÉS), que sempre põem distante da casa, para depois pegar no galinheiro do quintal os das galinhas carijós, comuns em todo o nordeste.
Após cada um cumprir a sua tarefa, uns varriam o
terreiro, outros pegavam as suas
baladeiras para caçar rolinhas, fabricar os seus brinquedos ou brincar com os animais. As meninas inventavam de fazer doce de leite e
outras a remendarem calças, camisas, blusas, redes, calções e lenções.
Sol a pique, perpendicular ao mourão de amarrar cavalos, vento quente e redemoinhos a varrerem o terreiro, o relógio da natureza, o sol, marcava 12 h. Seu José voltava da roça com os dois ou três filhos maiores e todos iam sentar nos seus tamboretes redondos, ao redor duma mesa de madeira de 10 lugares, cadeiras só nas cabeceiras.
Com seu José na cabeceira, vinha o almoço. Para os menores, dona Maria já trazia os pratos feitos, o feijão e a mistura nos seus pratos esmaltados, para os maiores e o genitor, uma tirrina funda, bem cuidada, cheia de feijão no centro da mesa, a mistura noutro utensílio.
Os pratos eram de porcelana, todos usavam colheres. Era comum alguns perguntarem :
“Mamãe, tem caldo? bote um pouquinho pra mim e tome farinha( HOJE, PRA EU)."
Ao término, uma rapadura, um doce de leite, de banana ou gergelim e um copo d'água, era costume para todos, uma xícara de café para atiçar o cérebro, assim falavam os genitores.
Eram as melhores férias depois de 04 meses de escola no CARIRI CEARENSE.
Das 10 crias, 07 concluíram o curso superior, os demais, devido o casamento, um abandonou o curso de economia no primeiro ano e os outros dois completaram o curso médio.
Como seu José e dona Maria acreditavam muito na escola, das suas dezenas de netos, 90% concluíram ou estão concluído o curso superior.
A vida é a vida, viva seu José, viva dona Maria e viva as grandes roças de mandioca para o fabrico da goma e da farinha.
Estes ensinamentos eles passaram para os irmãos e todos os seus sobrinhos. São imortais.
Viva a Chapada do Araripe, o meu Pernambuco e o meu Ceará.
Assim se pronunciavam para todos :
"No futuro nem os animais pegaram peso. Estudem para que a caneta substitua a foice e a enxada; as capoeiras e as roças sejam trocadas pelos cadernos e livros, é o cérebro o grande comandante a vida. Cuidem deste órgão pensante. São das ideias que os homens viverão com mais tranquilidade. Estudem, cultivem e valorizem o cérebro."
Seu José e dona Maria.
Salvador,03 de Maio de 2026
Iderval Reginaldo Tenório
O tracoma é uma infecção ocular crônica e contagiosa causada pela bactéria Chlamydia trachomatis, sendo a principal causa infecciosa de cegueira evitável no mundo. Afeta principalmente crianças em áreas com saneamento precário e falta de água, causando conjuntivite e, se não tratada, cicatrizes que levam à cegueira
3 comentários:
Esse trecho é do post *“Uma família nordestina do polígono das secas, Zezinho na caatinga”*, do Iderval Reginaldo Tenório.
É um texto de memória afetiva, quase um retrato literário. Bem diferente dos manifestos políticos anteriores.
*O que Iderval mostra aqui:*
1. *Infância forja o homem*
Abre dizendo que a infância de cada cidadão é diferente. E é nessa fase que se forja um verdadeiro homem. Se foi vivida com felicidade e amor, merece ser revivida a vida toda.
2. *Crítica aos “professores de Nordeste”*
Alfineta quem dá aula sobre nordestino sem viver a realidade: “é preciso viver e sentir”. Pra falar das variedades e diversidades da vida no sertão, tem que ter cheiro de caatinga no nariz.
3. *Cena do amanhecer sertanejo*
Seu José levanta 4h, ainda noite. Dona Maria, a matriarca, já tá de pé antes do galo carijó cantar e do jumento relógio zurrar.
Café pronto, tapioca boa, ovo estrelado na manteiga de garrafa.
4. *Detalhe que vira poesia*
O gato mimoso, a gata ceguinha, as cadelas Baleia, Piaba e Peixinha — todos margeando a grossa porta da cozinha. Ouvem o bater dos trens da tramela, a voz e o cheiro da matriarca.
“Baleia” é referência direta a Vidas Secas, do Graciliano Ramos. Iderval costura literatura no cotidiano.
*O tom:*
É saudade, é raiz, é dignidade na simplicidade. Mostra que riqueza não é só PIB — é afeto, rotina, bicho, cheiro de café 4h da manhã.
Depois de tanto texto sobre engessamento, idolatria e produtividade, aqui ele volta pra base: família. Pra ele, é no sertão, com amor e trabalho, que se forja caráter. Antes de cobrar escola e ciência, lembra que tudo começa no café com tapioca feito pela mãe.
O blog diz que a matéria completa tá no link.
Essa cena te lembra alguma infância? A tua ou de alguém próximo?
Esse texto do Iderval Reginaldo Tenório é uma crônica de formação. “Zezinho na caatinga” usa a rotina de uma família no polígono das secas pra mostrar como caráter, trabalho e estudo se plantam cedo.O retrato que ele pinta:A tese de abertura“Como são diferentes a infância de cada cidadão. É nesta fase que se forja um verdadeiro homem.” Pra Iderval, não existe “o nordestino” no singular. Existe vivência. E só quem viveu entende. Por isso a cutucada: “Muitos insistem em ministrar aulas sobre os nordestinos, sem nada saber [...] é preciso viver e sentir.”A liturgia do amanhecerSeu José 4h da manhã, enxada nas costas, chapéu de palha, alpercata de pneu, facão Collins na cintura, cabaça d’água barrenta.Dona Maria antes do galo. Café, tapioca, ovo na manteiga de garrafa.Os bichos: gato mimoso, gata ceguinha, as cadelas Baleia, Piaba e Peixinha — referência direta a Graciliano Ramos — esperando a tramela abrir. O detalhe vira épico.A pedagogia da escassezMeio litro d’água pra lavar rosto e escovar dente. Toalha única = tracoma. Ele não romantiza a pobreza. Mostra o custo. E ainda anota: *1 com a explicação clínica. Médico escrevendo.Tarefa pra todo mundo: roça pros maiores, pote, lenha, porco, galinha pros menores. Sol a pique = 12h. Relógio é o mourão.A mesa como universidadeSeu José na cabeceira. Tirrina de feijão no centro. “Mamãe, tem caldo? bote um pouquinho pra mim e tome farinha HOJE, PRA EU.”Rapadura, doce de leite, café “pra atiçar o cérebro”. A frase dos pais vira mantra.O resultado do forjamentoDas 10 crias, 7 com curso superior. Dos netos, 90% formados ou formando.“No futuro nem os animais pegaram peso. Estudem para que a caneta substitua a foice e a enxada [...] É o cérebro o grande comandante da vida.”A roça de mandioca virou diploma. A enxada virou caneta.O que fica:Iderval fecha um ciclo nos textos dele.No “Ode aos médicos” fala de sensibilidade cognitiva.No “Absolutismo e a Idolatria” fala de forjar cidadão pensante.No “Brasil precisa trabalhar” cobra escola e ciência.Aqui ele mostra onde começa: na caatinga, 4h da manhã, com café, tapioca e uma frase na mesa. Não é saudosismo. É tese: família + trabalho + estudo = alforria.E ele crava: “São imortais.” Porque ensinamento passado vira herança.“Viva a Chapada do Araripe, o meu Pernambuco e o meu Ceará.” É geografia virando identidade.Essa rotina de acordar com o sol, dividir água, ouvir “estudem” no almoço — você viveu algo parecido ou conhece quem viveu?
Ja vivi esse cenário, razões pelas quais um dia acreditei nesses canalhas que hoje diz administrar a espelunca denominada Brasil, resta a espeança de contas acertadas no além vida, abracej a medicina com o orgulho de ter passado em um dos mais difíceis vestibular do País, como todos aqui, e hoje muitos desses mesmos médicos se embriagam em um projeto pilítico desgastado e ainda dizem que melhor não comentar, negando-se a trazer mais luz à corriga pela sucessão
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