O QUE PEDI A PAPAI NOEL
Iderval Tenório
Nesta matéria, mostram-se os princípios de um bom relacionamento entre os humanos e a civilização contemporânea, vejam os que pesam em viver com harmonia.
Por Iderval Reginaldo Tenório
Mamãe pediu que fizesse um pedido a
Deus.
Assim me pronunciei
Outro dia, andando na praia, para limpar
a cabeça dos entraves da vida, fui apanhando conchas do mar, torceras de
capim rasteiro e bons punhados de areia, era natá.
Em casa, no
canto da sala, em homenagem ao menino Jesus, construí um pequeno presépe.
Aproveitei
bonecos de plásticos, caixas de sapatos,
mudas de pé de roseiras e um velho saco de cimento, que pelo averso, fica iguá
a uma caverna de pedras, iguá a que
nasceu o menino Jesus.
Fiz o presépe e iluminei com uma vela de cera de
carnaúba. Fui me deitar, já era tarde da noite.
De
madrugada, surgiu uma voz e perguntou:.
Quem fez este presépe? Repetiu duas ou três veis.
Cum medo e
desconfiado, nuca ganhei nada de ninguém, indaguei. Quem está
perguntando, a este pobre trabaiador.
A Voz fala-
Inhô fie.
Inhô Pai quer saber quem fez o presépe.
Mesmo
desconfiado respondi:
Foi Eu, Nhô
Bento, por que? O que fiz de errado? sou homem simples.
Nada Nhô
Bento. Inhô Pai gostou, achou tudo certo e quer
lhe recompensar. Disse que você pode pedir o que quiser.
Parado
fiquei a matutar, acanhado falei em voz baixa: Diga a Ele que Eu, Nhô
Bento, não quero mais viver nesta vida de pobreza, quero ser muito rico.
Peço um caminhão baú dos grandãos, 7 metros de
comprimento, 3 de artura e 3 de largura,
impiado de dinheiro, só notas de duzentos, instalando de nova.
Vou comprar
um fazendão, prantar 10 mil pés de café,
um coqueiral, cacau, roças de feijão, mii,
argudão, mandioca, arroz e um
canaviá de 10mil tarefas, casa de
farinha, queijaria e ingem de cana.
Vou
comprar 10mil cabeças de gado, cavalo,
bode, peru e muitas galinhas.
Vou
construir um açudão, de três légua, pra criar peixes, camarão e ser visitado
por todos os tipos aves. Vou fazer um instradão daqui até a cidade.
Vou gastar,
gastar, gastar e nunca vai acabar. Vou lavar os pé e me banhar com
alfazema, usar prefume francês, como as
madames, vou comprar chapéu de massa,
dez palitó e comer do bom e do mió.
Vou usar
muita pomada pra afinar a pele, vou
arranjar seiscentas namoradas e viajar por esse mundão de meu Deus.
Pra
dinheirama não mofar, vou espaiar no
terreiro pra tomar sole, vou sentar num
banquinho só pra contar as peles.
Ao levantar
as vistas, notou que o menino Jesus ficou triste.
A sua reação
foi de imediato, fechou os olhos, parou
o pedido e pensou, só para si:
E se
acontecer uma empidimia e outras doenças e matar os animá? E se vier um
incêndio e uma grande ventania e queimar as prantação e o dinheiro, e se a água
do açúdão se contaminar e também aparecer um buraco no fundo, acabar as águas e matar tudo que veve dentro dele? E se Eu por acauso cair doente e ficar inriba de uma cama,
paralizado e firidento, comendo e fazendo as necessidades com o auxílio dos outros, i ser tratado cum nojo
? Di que adianta tanta riqueza.?
Miou o Inhô
Fie e se pronunciou.
Inhô Fie,
diga a Inhô Pai, qui tudo qui falei foi
brincadeira, foi deliro.
Diga que não quero nada, pobre qui trabalha com dignidade tombém veve feliz com sua famía.
Diga que
peço saúde para criar os meus fios,
tanto para eu como para todos os cidadãos do praneta.
Peço que
mande chuva, boa lavoura para todos, escolas, hospitá, juízo para os políticos
e qui não suma com o dinheiro do povo, e
que haja justiça.
Nós num quer
ser rico Nhô Fie, nós quer é ser respeitado, visto e merecedor de tudo que um
ser humano precisa para viver bem.
Nós, os
animá, a terra, as prantas e os
fenomenos da natureza.
O principal
Inhô Fie, é que o Inhô Pai acabe com a desigualdade social entre os homens. E
que a riqueza, Inhô Fie, deva ser
alcançada por todos, pois todos são
irmãos e fie de Deus, nós quer as coisas com o suor do nosso rosto, nós
quer trabalho.
Quando
acordou e chegou até a sala, o menino Jesus estava sorrindo, piscando os
olhos, balançando os braços e as pernas
de alegria.
Ao abrir a
porta, corria um vento frio, o céu estava carregado de nuvens cinzas e uma
chuva fina começou a molhar o chão.
Água para alimentar a lavoura, os homens, os animá e a terra.
Neste ano
foi um ano de fartura.
Inhô Bento
vestiu a surrada camisa, foi para o terreiro, levantou os braços para o céu e
cheio de gratidão falou:
Viver na
terra só é bom, se a vida for boa para todos, todos merecem uma vida sem muito
aperreio. Ninguém Inhô Fie, é mió do que outro, nós pobre tombém merece viver
em paz.
Iderval Reginaldo Tenório
Vídeo acima

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