Os enigmas da vida
Revelações do menino Zezinho
Quando criança, lá na Chapada do Araripe, no município de Bodocó, Pernambuco, nos idos de 1960, ficavam sentados numa calçada, de cimento polido, onze vidas a comerem amendoins torrados ao redor de uma grande cuia, feita de cabaça, a mãe e a sua ninhada. Quatro mulheres e seis homens compunham este lúdico e educativo cenário, assim inicia o menino Zezinho uma de suas histórias.
É consistente em afirmar que a sua mãe não usava livros, não lia as suas histórias, trazia de dentro de sua mente, tinha pouca leitura. Usava a oratória passada de geração em geração, porém a sua inteligência, a maneira de transmitir os fatos e os gestos eram fenomenais.
Afirmava que nós, além da oralidade herdada dos ancestrais, tínhamos hoje milhares de histórias para contarmos aos nossos descendentes graças à escrita, isto é, graças aos livros nos quais grandes homens e mulheres documentaram para a eternidade.
Sempre falava: "Estudem, estudem e estudem sem perder a compostura e as suas raízes, não sejam subservientes, fujam da desonestidade e não sejam capachos de ninguém".
Na dianteira e sempre na dianteira, a matriarca a contar histórias dos seus ancestrais, ora dos indígenas e ora dos africanos, ora fábulas e ora realidades, eram noites inesquecíveis de confraternização. Enquanto isto acontecia, o patriarca ficava antenado nas rádios AM da Bahia, Rio de Janeiro e São Paulo em busca de noticias e de atualizações, dizia que tudo começa no Sul do País, notadamente em São Paulo.
O que não entendíamos era que durante o dia fazia um calor mormacento e à noite um frio de se bater os dentes, típico da caatinga nordestina. O céu era descortinado, poucas eram as nuvens, as estrelas e a lua ficavam nitidamente visíveis, o cenário era autoria do Criador.
Quem nos informava as horas era a Rádio Sociedade da Bahia com uma chamada familiar: " Fratelli Vita informa a hora certa". Vinha o frio e mamãe falava: " Tomem o chá de Capim Santos e vão dormir".
Do céu e da terra ela sabia de tudo, dos ventos, dos redemoinhos, os nomes das constelações, das estrelas, das nuvens, tudo sobre a lua e os seus segredos.
Sabia quando ia chover, se teria seca e até traduzir as línguas dos animais. Achávamos que ela conversava com os bois, cavalos, bodes, porcos, jumentos, calangos, lagartixas, cobras, morcegos e todos os tipos de aves, as do terreiro e as do quintal, os passarinhos que cantarolam nas árvores todos os dias e as que viviam nos arbustos da caatinga.
Sabia o nome, onde dormiam, quando estavam com vontade de comer, o gosto de cada um e a idade dos animais só em olhar os seus dentes, a nossa matriarca era a mulher mais sabida do mundo, ela sabia de tudo. Quando um animal adoecia ou uma galinha quebrava uma perna, ela atuava como uma médica generalista, sabia fazer de tudo, até encanar as canelas dos animais, quinze dias depois as doenças iam embora.
Nunca esqueço da noite que ela pediu para que olhássemos para o céu. Entre um amendoim e outro, apontava para o céu e nos mostrava cada estrela com os seus respectivos nomes, dizia que não poderíamos contar para não nascer verrugas nas mãos.
Dizia que nenhum homem no mundo ou máquina conseguia contar quantas estrelas haviam no céu. Com segurança dizia, se cada animal e cada planta, de todos os tipos, ganhasse uma estrela, incluindo os homens, ainda sobrariam muitos e muitos tantos de estrelas, eu não sei onde ela ouviu esta informação, pois nunca leu sobre este mistério, só sei que ela nos falava e falava com propriedade.
Parava os olhos num pedaço do céu e falava: “Aquele é o cruzeiro do Sul, são cinco estrelas, aquelas são as três Marias e aquela sozinha é a Estrela Dalva, a mais brilhante de todas ”. De vez em quando surgia um raio brilhoso que cortava o céu e ela falava, aquela é uma estrela cadente, ela está caindo e sumirá do céu, a nossa atenção era pétrea.
Quando era
noite de lua, as histórias eram variadas, o que mais nos impressionava era saber que São Jorge e o seu cavalo estavam na Lua, eram tão reais que
enxergávamos o são Jorge espetando o dragão. Víamos até a língua querendo
pegar o Santo Guerreiro, porém o Santo sempre vencia, era nosso herói, todos
nós queríamos ser valentes como São Jorge. É bom informar que estes encontros eram encerrados com cantorias, mamãe puxava na dianteira e falava a história da música, cada um cantava a sua.
Vieram
a escola, a ciência, os estudos, os livros e os professores, que
juntos queriam apagar das nossas mentes aquelas noites inesquecíveis dos meses
de novembro, dezembro e janeiro ao redor da nossa matriarca.
Crescemos, estudamos, passamos a conhecer o que os estudiosos do assunto nos passaram dos estudos dos atros e do universo, porém por mais estudos e explicações, todas as vezes que vamos à Serra do Araripe, vamos à mesma calçada, olhamos para o mesmo céu e lá se encontram o Cruzeiro do Sul, as Três Marias, o São Jorge na Lua e a bela, brilhante e resplandecente Estrela Dalva. Minha irmã que é professora, estudiosa do assunto e agrônoma, com ar de engenheira fala professoralmente:
“ Vocês sabiam que a Estrela Dalva não é uma estrela, é um dos Planetas do Sistema Solar, o segundo mais próximo do sol e fica entre Mercúrio e a Terra, é chamado planeta VÊNUS e a Estrela cadente não é uma estrela? É um meteoro, um pequeno rastro luminoso gerado quando um pedaço de rocha espacial (meteoróide) entra na atmosfera da Terra em alta velocidade e queima devido ao atrito com o ar?”
Em uníssimo falamos: “ Tu quer saber mais do que mamãe? Isto é invenção dos homens, invenção dos americanos e dos homens da Europa, eles já foram lá?. Ninguém sabe mais do que mamãe, não queira estragar a nossa infância, fale isto quando estiver dando aulas para os seus alunos, não anule a criança que está dentro de cada um de nós”.
Para encerrar a conversa falarei com romantismo. Mamãe falava a nossa ancestralidade, a língua do seu povo e dos nossos antepassados, falava por intermédio da oralidade, uma comunicação pujante e verdadeira, a língua do início do mundo e que não possuía escrita, a língua do coração, a língua do dia a dia, falava a natureza”.
Mesmo frequentando as Universidades da vida com as suas complexidades, nos momentos informais e de se viver a vida com alegria, predominam os ensinamentos da nossa sábia, alegre, inteligente e amável matriarca.
Ela nos ensinou que jamais deveríamos deixar morrer a criança que existe dentro de cada um de nós.
Mesmo que alcance na vida séria e dos estudos degraus altos na sociedade, nunca esqueçam que existe uma criança inocente dentro de cada um de nós e esta tem conhecimentos que devem ser passados para os descendentes de geração em geração.
Menino Zezinho
Salvador, 18 de Setembro de 2026
Iderval Reginaldo Tenório
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