CARIRI SEM CHAPADA? Não há Egito sem Nilo, nem Cariri sem Chapada do Araripe : Excelentes reflexões De PH
Não há Egito sem Nilo, nem Cariri sem Chapada do Araripe
Quem é do Cariri vive mergulhado numa cultura que vai além do que se come e bebe.
Neste agosto de muito calor e nada de chuva, os moradores do Cariri
foram informados sobre o plano de manejo da Área de Proteção Ambiental
(APA) da Chapada do Araripe. O ICMBio autorizou a possibilidade de
produção agropecuária em quase 90% desse território, que é uma unidade
de conservação criada justamente para garantir desenvolvimento
sustentável. Houve condicionantes, mas mesmo assim é assustador o que
parece
surgir no horizonte.
A decisão é mais um passo de um movimento econômico silencioso que
parece ter escolhido o platô do Araripe como uma nova fronteira agrícola
brasileira, algo que tem sido comparado ao que já acontece em outras
regiões do país, notadamente o Centro-Sul e o Norte, e até mesmo no
Nordeste, como o Oeste da Bahia e o Sul do Piauí, onde hectares viram
monocultura.
Acontece que esses investidores talvez ainda estejam por entender que o
Cariri é uma terra de gente que tem na Chapada do Araripe o sentido
da sua vida. E que isso é algo enraizado.
Quem mora aqui nasce, vive e,
se possível, morreria apreciando o horizonte emoldurado num paredão
sempre verde, mesmo durante a seca inclemente.
As pessoas passam os fins de semana em sítios, muitos deles na Chapada
do Araripe. Nossas trilhas estão entre as mais frequentadas, sendo
destaque nacional para a prática do ciclismo dentro da vegetação.
Nós gostamos de tomar banho na bica da Nascente, na cachoeira do
Lameiro, no Açudim do Belmonte, nos clubes Serrano e Granjeiro.
Nós temos oprazer de mergulhar nas fontes do Caldas, em Barbalha.
Digo um pouco mais: quem vive no Cariri gosta de roer o pequi da Serra,
que nasce na Chapada do Araripe, e do Arisco, que brota das árvore
remanescentes entre Crato e Juazeiro do Norte.
A gente tem caju e maracujá nativos, jaqueiras espalhadas pela Chapada
do Araripe, macaxeira e abacaxi plantados por agricultores familiares.
Quem é do Cariri come feijão de todo tipo, o comprado no supermercado e
também verde e andu. Soja aqui o povo tira é onda. Da última vez que
foi oferecida em escola pública, virou meme de merenda sem futuro.
Quem é do Cariri entende
Quem é do Cariri vive mergulhado numa cultura que vai além do que se
come e bebe, que já é algo essencialíssimo. As manifestações culturais
são ligadas ao território, resultado dos nossos ancestrais que ocupavam a
Chapada do Araripe.
A dança do coco da Mestra Maria de Tiê do Quilombo Souza em Porteiras, o
reisado de Mestre Aldenir da Vila Padre Cícero do Crato e as rezas e
benzimentos de Mestra Zulene Galdino, da Vila Novo Horizonte, também no
Crato, que, inclusive, aprendeu a rezar com a Caboclinha da Mata.
Sim, o Cariri tem as suas próprias entidades, que são da floresta, além
de ser a região proporcionalmente mais católica do Brasil, tendo dado
todo um aspecto particular à religião romana.
Além da Caboclinha da Mata, já ouviu falar no Vim Vim, o pássaro falante
da floresta? Não é o soldadinho-do-Araripe, nossa ave-símbolo,
endêmica do Cariri. Esse outro, que seria ouvido por humanos
extremamente conectados com a floresta.
Logo, é absolutamente esperado que os moradores do Cariri mobilizassem
uma robusta resistência contra o anúncio da autorização de uso da
Chapada do Araripe para a produção agrícola.
Após a repercussão negativa, o ICMBio publicou nota informando que o
plano de manejo não é uma autorização do agronegócio. Explicou que
foram decididas condicionantes importantes com a proibição de plantio de
transgênico e pulverização aérea de defensivos agrícolas.
O que será feito da Chapada?
Não é o bastante. A sociedade está mobilizada. O que se quer é entender o
que realmente está sendo feito, se será feito e de que forma
isso realmente pode atingir a Chapada do Araripe, já por demais
cicatrizada pela especulação imobiliária. São muitas perguntas que
precisam
ser respondidas:
Por que ocupar o platô da Chapada do Araripe se municípios como Brejo
Santo, Mauriti e Missão Velha já teriam essa vocação econômica?
Por falar nisso, ficam no leste do Cariri a BR, a transposição e a
transnordestina.
A produção no platô não poderia consumir água lá em cima e causar
escassez aqui embaixo, prejudicando os produtores na Bacia do Rio
Salgado?
É realmente estratégico plantar mais commodities se o maior comprador,
que é a China, acaba de anunciar no seu plano plurianual que pretende
reduzir a importação de alimentos?
Por que não se criam mais reservas ambientais e quem sabe um parque
nacional que proteja integralmente nascentes e remanescentes produtores
de água?
Se esse investimento for feito, o que vai ser plantado? Quem são os
investidores? Há incentivo fiscal para isso? Vai gerar emprego? Quantos?
Como serão os salários?
Como fica o plano de ter a Chapada do Araripe reconhecida como
Patrimônio da Humanidade pela UNESCO? Foi esquecido e ninguém avisou ou
vão tentar
conciliar? É possível?
São muitas questões e essas foram elaboradoras por mim, que não sou nem
ambientalista, nem economista, mas são óbvias e feitas por alguém que
cobre
a este lugar há bom tempo e que sempre se surpreende com as
particularidades do Cariri, que fazem dessa região uma das mais notáveis
do país.
Termino esta crônica sugerindo ao paciente leitor um clássico: "O
Cariri", de Irineu Pinheiro, que estou relendo na sua edição de letra
miúda da
Edições UFC, que me inspira o título, uma ideia perfeita do que do
Cariri e dos humanos que aqui vivem.
"Lê-se em Heródoto que o Egito é um produto do Nilo e egípcios são os
que bebem as águas do grande rio. Parodiando o historiador grego,
podemos dizer
que o Cariri é um presente da Chapada do Araripe e caririenses os que
lhe bebem as águas das nascentes, as quais originaram as cidades do
extremo sul
do Estado e as têm feito progredir."
Fonte : Escrito por
Paulo Henrique Rodrigues (o Ph)
producaodiario@svm.com.br

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