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sexta-feira, 25 de setembro de 2026

O Cachorro Leão e a Tatu Bola

 





                                       O Cachorro Leão e a Tatu Bola


Fim  de tarde, de repente o cachorro leão saiu em disparada e adentrou na capoeira.  As glândulas olfativas acusaram tatus  no seu raio de ação. O dono do cão, bornal à tiracolo, facão na cintura e cordas nos ombros o seguiu orientado pelos latidos. O animal estava acuado com alguma caça.

O cachorro chegou ao destino, de longe avistou o confabular de três  jovens tatus, um corria para um lado, pulava para o outro, ficava com o casco no chão e as pernas para cima, estava a bailar, outro com o seu focinho amarelo cutucava a sua barriga freneticamente e um terceiro grunhindo em tom alto e musical, se jogava por cima dos outros a gargalhar.

Na boca do buraco, na boca da toca surgiu uma velha e cuidadosa   tatu.  Da porta de sua residência vigiava os seus rebentos e observava o cachorro leão.

 Os três filhotes eram semelhantes em tudo, no porte , na cor  e com as mesmas características,  todos do mesmo sexo.  Eram todas fêmeas, da mesma ninhada com quatro meses de idade .

O cão de longe, no aceiro da capoeira,  a observar.  Pensou em capturar os três filhotes e ficou a matutar.  Providencialmente  a mãe Tatu enfiou o focinho entre as pernas,  por baixo  da amarela e peluda barriga, e como uma bola  rolou até o predador,  se jogou diante das  duas patas dianteiras. Os filhotes de olhos arregalados pararam diante da inebriante  cena, ficaram petrificados com o choque, eles não conheciam o bicho cachorro.

O cachorro ficou assustado com a velha tatu bola na  sua frente,  cheirou o casco da velha matriarca, a tocou com a ponta do frio nariz e lambeu com a sua língua molhada.  A corajosa tatu desfez a bola defensiva , ficou sentada cara a cara com o cachorro leão, a desafiá-lo ou a se oferecer  em troca das vidas dos seus inocentes filhotes.

O predador levantou a cabeça, observou os tatus mirins, olhou mais uma vez para a matriarca e foi vagarosamente até a boca da toca de onde saíra  a  velha matriz.  Mediu um raio de  cem metros ao redor da toca, num movimento lento e preciso urinou em mais de 08 pontos, demarcando  em círculo o seu reduto, depois abandonou o local  após  se despedir daquela família de tatus.

De volta à sede da fazenda, o cachorro leão  encontrou o seu esbaforido dono e voltaram pelo mesmo caminho, foi dada como perdida a caçada.

Durante um bom tempo, o velho cão visitava semanalmente aquela bela família, fazia os mesmos movimentos, urinava nos mesmos locais, sempre a renovar o seu reduto. 

Os outros cachorros que chegavam na região,  logo            que sentiam o cheiro dos hormônios ao redor da toca,  davam meia volta e diziam, aqui não, deu chabú,  este é reduto do compadre leão. 

E aquela família de tatus,  com o passar do tempo e livre das garras dos predadores progrediu e procriou, deixando de ser uma das raças ameaçadas de  extinção.

Belo cachorro, exemplar e corajosa mãe, inocentes filhotes e sábia natureza. 

Os  mamíferos irracionais , que são brutos e instintivos,  também são sencientes.  

Predominou a senciência  animal, que sempre preza pela preservação natural  em detrimento do racional, que naturalmente conspira indiscriminadamente pela destruição  .

Iderval Reginaldo Tenório

O blog é cultural

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