Estatísticas do blog Estatísticas do blog Mostra o número de visualizações de página no seu blog.

sexta-feira, 23 de outubro de 2026

O VELHO CAVALO

 Foto de Cavalo Moribundo Magro e mais fotos de stock de Antigo - Antigo,  Cavalo - Família do cavalo, Cuba - Grandes Antilhas - iStock



                         

      
 

                                                   Foto de Cavalo Moribundo Magro e mais fotos de stock de Antigo - Antigo,  Cavalo - Família do cavalo, Cuba - Grandes Antilhas - iStock

                                                 O VELHO CAVALO                                                       

 Sertão do Ceará, 1915 .

Um vendedor, de meia idade, negociava utensílios domésticos como martelos e pregos,  roupas e lençóis, panelas, colheres e  copos de alumínio, abanos, grelhas, espetos, facas   e outros itens nos cafundós da esturricada Serra do Araripe, divisa do Ceará com Pernambuco.

Possuía uma parelha de animais, um equino e um muar,  o belo cavalo trovão, bom de passos e o burro sansão, bom de carga.  Longas distâncias  e belas paisagens na lida diária, o muar para as cargas, o equino para os passeios.

O garboso cavalo sempre nas festas, feiras, comemorações e nas grandes corridas. Orgulhosamente o belo animal desfilava naqueles sertões. Bem tratado e alimentado, bom capim, boa alfafa, excelente milho e tortas de caroços de algodão, uma  vida de rei.

Impecáveis arreios e vistosos ornamentos, manta vermelha de cetim, sela macia, peitoral ornado com estrela de metal, rédeas e alforjes de couro  de carneiro, rabicho trançado com fio de seda, boqueira e estribos de prata, bem polidos e a cintilar a luz do sol, vivia épocas de glórias.

Orgulhava-se quando recebia preços, apreços, avaliações, elogios e jamais o cavaleiro pendia para negociação. Era um animal faceiro, elegante, orgulhoso e cheio de brios, na sua garupa as mais belas donzelas. 

Era motivo de festas onde chegava com os seus passos, galopes e trotes, numa demonstração de força e virilidade, qualidades estas que lhe credenciavam a cruzar com belas éguas ou formosas  asininas, assim era e vivia o pomposo cavalo.

O muar, coitado, a subir ladeiras e a cortar caminhos, dois a três sacos na grosseira cangalha pregada no lombo, cabresto de cordas de croá, rabicho de agave, duas puídas viseiras, de couro cru, em cada lado da cabeça, obstruindo, tapando, abortando, escurecendo e a impedir a visão lateral. No pescoço um pesado chocalho para a sua identificação.

Nos fins de semana, durante o dia, quatro cambitos para o carregamento de lenha e feixes de canas, à noite, dois caçuás para o transporte de frutas, garrafas e diversas mercadorias nas festas do lugarejo, era uma mercearia ambulante, o ganha pão do almocreve.

Como pastagem, capim seco,  relvas, palhas de milhos encontradas nos arredores e nos monturos das casas, não sabia se vivia para comer e trabalhar ou só teria comida se trabalhasse.

Longas eram as conversas entre os dois animais. O muar, piado nas duas patas direitas, triste e a lamentar, porém conformado por lhes sobrar a vida para o trabalho; o outro, solto pelos terreiros, falante, garboso e risonho; ambos confabulavam sobre as suas vidas, as injustiças e quão ingrata era a vida para um deles. A diferença era exorbitante, era de fazer pena,  foi assim durante muitos anos, um sempre sorrindo e a gargalhar, o outro... o outro, só Deus para socorrer.

Como o tempo é o pai, o aconselhador, o diluidor dos sofrimentos e a esperança a mãe de todos os animais, uma década se passou e os dois viventes sempre a dialogar.

Com a falta das chuvas, foram escasseando as vendas e aumentando as despesas, motivo mais do que suficiente para que o almocreve diminuísse os momentos de festas e de alegrias. 

Primeiro se desfez dos belos arreios, diminuiu a compra de alimentos especiais, como necessitava aumentar o volume das cargas, passou a utilizar os dois animais na lida diária como cargueiros, os passeios recreativos do equino passaram a ser coisas do passado.

O belo e orgulhoso equino passou a andar na vala comum, lado a lado com o muar, a garbosa sela foi substituída por uma cangalha, um saco de cada lado e o  dono escanchado no meio. Desta vez contando os passos, pulando grotas, subindo e descendo ladeiras.  Na ida, produtos da lavoura e na volta especiarias para abastecer as bodegas da região: Querosene, peixes salgados, açúcar, café e outros mantimentos.  Com o novo ofício desapareceram as belas éguas, as formosas asininas e os saborosos manjares. O equino passou a sobreviver nos grotões e nos monturos do esturricado sertão.

O muar continuou a sua batalha, agora como coadjuvante, apenas como complemento de cargas. Quando os produtos eram poucos, ficava a pastar, a perambular pelas capoeiras à procura de uma relva mais hidratada, vivia a pensar na sua atual e inútil vida. Costas batidas, boca murcha, dentes falhos, amarelados, desgastados e com raias escuras. Bicheiras no lombo, espinhaço pelado, cascos rachados e juntas calcificadas, sobrevivia a perambular caatinga adentro. Como foi forjado para o trabalho, sentia-se um inútil, um dispensável,  entediado mergulhou no mundo da tristeza, entrou em banzo.

O velho equino fazia a vez do muar nas feiras livres, dos vilarejos serranos. Dois sacos, o dono escanchado no meio da cangalha e o filho na garupa, subia e descia os penhascos do Araripe, já não possuía belas boqueiras de prata e nem cabrestos de couro de carneiro com estrelas na testa.

O rabicho de seda, fora substituído por rabicho de cordas a cortar a borda anal. As cilhas, agora de couro cru, com suas grosseiras fivelas a lhes causar mossas na barriga e a traumatizar os bagos aposentados.

A força era agora a sua maior virtude, força para não sofrer com as pontiagudas esporas que tangenciavam os órgãos genitais, muitas vezes ferindo-os quando desacertava os passos, consequências dos janeiros acumulados e da  perda da massa muscular, que cientificamente é chamada de sarcopenia.

A vida endureceu para o faceiro e garboso animal, trouxe à memória os momentos de bonança ao lado do zeloso patrão, nos tempos das vacas gordas, das chuvas, das farturas e dos grandes bailes. Olhava para os lados e não mais enxergava os pomares verdejantes do caminho, pois os tapa olhos laterais do muar, agora encontravam-se na sua cabeça, vedando os seus olhos, limitando a visão para as belas paisagens de outrora.

O velho cavalo não mais participava dos acontecimentos e nem das quermesses, passou a ser um animal de cargas, puramente para comer e para o trabalho, não tinha direito a pensar. 

Seguia a dura e pétrea regra, obediência sem contestação, vivia silente e aos puxavancos do puído cabresto que lhe cortava as moídas narinas, do rabicho que magoava o tronco da calda e a borda anal, das cilhas que feriam a barriga, as virilhas e machucavam os inúteis bagos. O animal vivenciava a mais espúria entidade criada pelo dominador, o mais baixo golpe sofrido por um ser vivo, obedecer sem contestar, vivia a mais degradante forma de vida, a escravidão.


Os três foram minguando. O esquálido muar sem trabalho,  esquecido, menosprezado, deprimido e abandonado foi requisitado pelos asiáticos para a produção de  charque. O faceiro equino, agora não mais belo, sem a força da juventude, com a estima em baixa caiu no ostracismo. Calda imóvel a proteger o fim dos intestinos, esfíncter este que sofria compressões musculares periódicas ao menor grito.

Relinchos abafados, olhos sempre para o chão, dentes desgastados, puídos e rentes às gengivas, musculatura minguada, pele áspera e pelos ressecados. Sem força, sem brio e sem pernas, foi substituído por sangue novo, mergulhou na solidão. Não mais requisitados ao trabalho, embrenhou-se nos carrascos, entrou em banzo e nunca mais soube do seu paradeiro, sumiu.

O cavaleiro em crise e em desacerto envelheceu. Sem os seus escravizados e provedores animais, com a chegada do progresso, dos bulidos  dos motores, mergulhou no esquecimento e na solidão da vida. Os dias ficaram mais longos, a falta de afazeres lhe consumiram os brios e a cidadania, caiu no esquecimento. 

De resto, com o êxodo e à procura da sobrevivência, os despreparados  descendentes migraram para as  cidades  a fim  de alimentar, como lenhas verdes,  as grandes metrópoles. Ora na construção civil, ora na desconstrução da cidadania e ora a forjar uma nação servil  sem rumo, sem prumo e sem paradeiro.  

Em terras estranhas, estes abandonados brasileiros  batalham, lutam e sobrevivem apenas o presente. São  seres vivos sem esperanças de futuro  tais quais o sofrido almocreve, o garboso equino e o incansável muar,  muitos terminam mergulhados nos mares dos desvios de condutas e  sem perspectiva de uma vida digna.

Iderval Reginaldo Tenório 

22 de Setembro de 2025

Nenhum comentário: