BOMBAS, TROVÕES, CÃES E GATOS
MUDANÇA DO COMPORTAMENTO NOS ANIMAIS
Num tenebroso inverno no final dos anos sessenta, sob os estrondos das trovoadas noturnas, muitos cães pés-duros, da zona rural mudaram os seus comportamentos. Alguns foram sacrificados a mando dos especialistas do município após chegarem a um veredicto: Raiva.
Aviso aos moradores
A Raiva é uma doença mortal, transmissível, não tem tratamento quando os sintomas aparecem.
Zezinho, 12 anos de idade, contestou aqueles atos e falou para si que um dia estudaria aquele fenômeno.
Pensava só para si:
" Não tem sentido, não é lógico e deve ter uma explicação, seria raiva coletiva, será"?.
Noite longa, muita chuva, ventanias, relâmpagos, raios, trovões de derrubar telhados, árvores caídas e muito medo.
Ao nascer do sol, alguns cães ficaram latindo a esmo, amofinados nos cantos das paredes, trêmulos, olhar perdido e outros levemente agressivos.
As autoridades municipais foram informadas. De imediato, açodadamente e sem um estudo completo do fenômeno, deram um veredicto:
"Estão contaminados com o vírus da raiva."
É uma doença perigosa, mortal e que pode passar para outros cães e para os humanos, ainda não tem cura.
Zezinho foi a campo para fundamentar a sua curiosidade. Como estudava na cidade, começou a sua pesquisa na zona urbana.
Observou que os cães que tinham tutores e dormiam sob a proteção dos mesmos, não apresentavam mudanças comportamentais estranhas, porém os cães de ruas ficavam atordoados com estrondos de bombas e trovões, estes fatores aguçaram o seu raciocínio.
Quais os porquês? Arregaçou as mangas e foi em busca das respostas. Fez diversas entrevistas com os estudiosos da cidade e debruçou-se na literatura.
Voltando ao seu reduto, deu continuidade à sua pesquisa. Visitou diversas casas do campo nas quais os cães foram sacrificados. Ao inquirir exaustivamente os moradores, chegou à uma superficial conclusão:
Dos cães que tinham um tutor e passavam a noite sob proteção, poucos apresentaram mudanças no comportamento; dos que dormiam no relento, sob a tutela da escuridão e dos fenômenos naturais( trovões, raios e relâmpagos), muitos mudaram e alguns, por não voltarem ao normal, foram sacrificados como cães doentes da raiva. Com estes estudos, o jovem deu continuidade à sua pesquisa.
O tempo passou e depois de adulto investiu nos estudos, teve acesso a vários artigos e pinçou textos que poderiam esclarecer o fenômeno.
1- Trovões e bombas podem desencadear crises de pânico, fobias e quadros de ansiedade intensa em cães, conhecidos clinicamente como fobia de ruído. Que embora não criem um transtorno mental crônico, ativam um estresse extremo que pode se agravar com o tempo.
Os cães ouvem sons muito mais altos e em frequências mais baixas que os humanos.
2-A queda na pressão atmosférica antes da tempestade avisa ao cão que perigo se aproxima.
O pelo do animal pode acumular carga estática, causando um incômodo físico real.
Tremores e batimentos cardíacos acelerados.
Tentativas desesperadas de fuga ou de se esconder em locais apertados.
Latidos excessivos, choro ou uivos, salivação em excesso ou fazer xixi/cocô por pânico.
3- Cães protegidos e acolhidos por seus tutores sofrem menos com trovões e bombas, pois a presença de uma figura de confiança serve como uma âncora emocional.
Estudos de comportamento canino mostram que os cães usam seus humanos como porto seguro e o acolhimento reduz os níveis de cortisol (hormônio do estresse) no animal.
4- A vacina e o tratamento antirrábico (conhecido como método Pasteur) chegaram ao Brasil no final do século XIX e inicio do século XX, com o início das aplicações práticas consolidadas em 1903, após a fundação do Instituto Pasteur de São Paulo em agosto daquele ano.
5- A Criação do Programa Nacional de Profilaxia da Raiva (PNPR) em 1973, estruturou em âmbito nacional a vacinação em massa de cães e gatos para controle da raiva urbana.
6-O estudo comportamental do medo de ruídos intensos (como bombas e trovões) em cães ganhou força acadêmica e veterinária nas últimas décadas, especialmente a partir dos anos 2000.
Esse pânico ocorre porque a audição canina capta frequências e distâncias quatro vezes maiores que a humana. Trovões e bombas suportáveis para os humanos, são catástrofes para os cães e os gatos, ativam o sistema de fuga e medo intenso de forma imprevisível.
Zezinho, de posse destes conhecimentos, apresentou no ano 2000 a sua tese de colação de grau, na Faculdade de MedicinaVeterinária da Universidade Federal do Estado do Ceará, com o título.
DESVENDADA A MATANÇA DE VÁRIOS CÃES, NA DÉCADA DE SESSENTA, NA CHAPADA DO ARARIPE.
Sepultada a causa viral e esclarecida a sua interrogação sobre a raiva coletiva.
Não existe raiva coletiva
(como um surto de histeria ou raiva simultânea em grupo) em cães. A
raiva é uma doença infecciosa viral real e individual, causada por um
Lyssavirus, que afeta o cérebro. Se vários cães parecem bravos ou
alterados juntos, isso ocorre por estresse, brigas por território,
matilha ou medo, e não por uma infecção coletiva
Iderval Reginaldo Tenório
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