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CRÔNICAS DO NORDESTE.
Lendas e Causos
Pedro, o cachorro leão e a onça pintada.
Pedro, de dona Zefinha, acordou pela madrugada, o clarão do sol começava a esconder a luz da lua.
Manhã fria de um azul profundo, sem uma nuvem no céu.
Pedro foi ao terreiro, se espreguiçou, com uma raspa da casca do Juazeiro limpou os dentes e passou água no rosto.
Cuidou das 3 cabras e dos cabritos, ordenhou a vaca mãezinha, botou água no pote da cozinha, sentou para tomar seu café, com cuscuz e charque assada na brasa.
Pedro vivia para a sua mãe, tudo que fazia era em benefício da genitora. Rapaz bonito, sertanejo forte, sadio, trabalhador ao extremo, gentil e muito educado, homem pacato e de muita coragem.
Era sábado, dia de feira livre no povoado de Pedra Preta, confins do alto sertão nordestino.
Perguntou a sua mãe o que queria da feira. Pegou o bizaco de caçador, a velha lazarina, o chapéu de palha, o facão e arribou para Pedra Preta, distava légua e meia do sítio.
Chegou à feira, comprou os mantimentos e duas bacias de flandres, uma Alpercata, chumbo, bucha, pólvora e espoleta. Foi tomar uns tragos com uns amigos, pois ninguém é de ferro e também era filho de Deus. Dizem que, quando o diabo não vem, manda o secretário, parece que isso é verdade.
O môço após três lapadas de cana, das boas, estava um pouco alegre. Deu de vista com uma cabocla, cor de jambo, muito bonita, corpo bem feito e um lindo sorriso, os olhares se cruzaram, Pedro ficou animado.
Tomou mais duas cachaças e de butuca na morena, quando sentiu um grande murro nas costas, que o jogou ao chão. De pronto levantou pra brigar. Notou que o desafeto estava armado de faca, deu um passo para trás e se preparou para o pior, só não ia correr do pau, pois era macho, caboclo paraibano dos bons.
O cabra correu pra cima e ele revidou, se atracaram. Pega e fura ali, murro aqui e acolá, Pedro foi ferido pela faca no braço, caíram um por cima do outro, ouviu-se um grito forte e depois o silêncio…
O problema é que, quando o namorado da morena, eis aí o motivo da briga, caiu, o representante do diabo fez a sua estripulia, a faca virou a afinada ponta e penetrou profundamente no peito do desafeto, atingiu o coração, o mesmo morreu na hora.
Pedro se apavorou, pegou seus piqualhos, sua lazarina e caiu no ôco do mundo caatinga adentro por cima de pau, pedra, espinho e o mais que tivesse pela frente. Só não queria ser preso. Preso não, isso nunca...
Andou na mata fechada o resto da tarde e um bom pedaço da noite, evitando as moradias esparsas do sertão. Se embrenhou o mais que pode no carrasco sertanejo, tinha o sertão na palma da mão.
Parou exausto, já tarde. Bebeu a água da cabaça, escorou-se em uma pedra e adormeceu profundamente, ali ninguém ia lhe procurar.
Acordou cedo, como sempre, e deu de cara com uma vista muito bonita. Tinha dormido perto de um córrego e um verde vale ao pé da Serra. Fez uma pequena fogueira, pegou água na bacia de flandres, ferveu e fez o café.
Quando aconteceu o ocorrido, já tinha comprado os mantimentos. Explorou os arredores e decidiu fazer acampamento no local, assim o fez. Com o passar dos tempos fixou residência.
Depois de anos, trouxe a sua mãe, construiu uma pequena casa de taipa e ocupou o vale. Ninguém apareceu para reclamar a posse das terras. Casou com uma moça da vizinhança, porém não teve filhos.
Possuía um cachorro e se encheu de amores pelo bicho… era seu companheiro, guarda costa, ajudante, tudo enfim, o fiel e corajoso amigo, o nome era Leão, eram verdadeiros irmãos.
Pedro progrediu no seu arraial, era um incansável trabalhador. Tinha no curral meia dúzia de vacas, alguns bezerros, um bode, uma trinca de cabras e dois cabritos. A sua mulher era prendada, criava galinhas caipiras, perus, patos e galinhas-d'angola.
Numa bela noite, acordou com o latido do cachorro Leão ecoando para as bandas do curral, levantou, pegou a lazarina e foi ver o que estava acontecendo.
No curral leão estava indócil, porém no escuro não deu para enxergar o que tinha acontecido, acalmou o cachorro e voltou para casa.
Ao amanhecer, foi ao curral e deu de cara com o acontecido…uma onça pintada apareceu e levou uma bezerrinha. Ficou louco da vida e resolveu de imediato caçar a bicha, poderia inclusive perder todos os seus animais. Dali para frente, a onça poderia fazer morada no seu aconchego. A onça foi condenada á morte para o bem dos seus animais.
No outro dia, preparou todos os apetrechos, chamou Leão e bateram um longo papo sobre o ocorrido na noite anterior, diga-se de passagem, ele gostava de trocar ideias com seu amigo.
O dia era sexta feira, todavia tinha um detalhe, era sexta feira santa, um dia sagrado para todos os sertanejos nordestinos. A sua mulher falou para ele não ir naquele dia, fosse no sábado, era melhor. Pedro estava irredutível, chamou Leão e partiram para a caçada.
Andou toda a manhã e nada de Leão dá sinal de ter farejado algo. Ao meio dia parou em uma sombra, comeu o farnel que dona Rita preparou, deu de comer ao amigo e saiu à procura da pintada.
Andou pouco, o cachorro deu o sinal de ter farejado algo…foi pé ante pé, ele e leão, e por trás de uma pedra estava a onça dando de mamar aos dois filhotes. Parou, mirou a espingarda na cabeça da bichana e ao puxar gatilho, preparando-o para o disparo, o estalido da engrenagem despertou a onça e Pedro ouviu um grito de socorro.
"Pelo amor de Deus meu senhor, não me mate não, tô dando de comer aos meus filhos".
Menino, Pedro largou a lazarina no chão, virou-se e deu uma carreira por mais de uma légua, tão em disparada que perdeu as alpercatas e Leão nos seus calcanhares. Ambos caíram prostrados debaixo de uma moita por mais de duas horas.
Quando Pedro despertou e ainda ofegante, olhou para o cachorro Leão e falou…
"Minha nossa senhora Leão, pelos poderes de Deus, nunca vi onça falar".
E Leão de pronto respondeu:
"Nem eu"!
Eita nordeste bom. Tem cada "causo" né?
Marcos Sales e Iderval Tenório
SSA, 02/09/2021
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Um comentário:
Esse é um “causo” raiz do sertão, na veia de João Guimarães Rosa e dos contadores de feira. Iderval conta como se tivesse sentado no tamborete, tirando fumaça de cachimbo.A história em 3 atos:1. Pedro, o homem
Filho de Dona Zefinha, trabalhador extremo, pacato e corajoso. Vai pra feira de Pedra Preta, compra mantimento, toma umas cachaças, se encanta com uma cabocla cor de jambo.
Ciúme do namorado, briga, facada, morte. Pedro foge “pro ôco do mundo caatinga adentro”.
Aqui já tá o código do sertanejo: não corre do pau, mas também não quer cadeia. Prefere a mata.2. A fuga e a vida nova
Pedro vira morador do vale, traz a mãe, constrói casa de taipa, casa com Rita. Não tem filho, mas tem Leão.
“Eram verdadeiros irmãos.” O cachorro é tudo: companheiro, guarda, ajudante. É a família que ele escolheu.3. A caçada e o milagre
Onça pintada mata a bezerrinha. Pedro jura matar a onça. Escolhe sexta-feira santa, dia sagrado. A mulher avisa: “melhor não ir hoje”. Ele vai.
Acha a onça amamentando os filhotes. Mira. Vai puxar o gatilho... e ouve:
“Pelo amor de Deus meu senhor, não me mate não, tô dando de comer aos meus filhos.”
Pedro larga a lazarina, corre uma légua sem alpercata. Leão nos calcanhares.
Quando acorda debaixo da moita fala: “Minha nossa senhora Leão, pelos poderes de Deus, nunca vi onça falar.”
E Leão responde: “Nem eu!”Por que esse causo é Iderval puro:O sertanejo real: Pedro não é herói de cordel invencível. É homem comum, erra, bebe, briga, foge. Mas tem honra, cuida da mãe, trabalha feito condenado.A ética da vida: Ele ia matar a onça até ver que ela também é mãe. Aí o instinto de caçador quebra. Sexta-feira santa pesa. O respeito à vida fala mais alto que a vingança.O humor seco: Depois de ver uma onça falar, a única coisa que ele consegue dizer pro cachorro é “nunca vi onça falar”. E o cachorro responde “nem eu”. É o humor nordestino: mesmo no susto, tem piada.A linguagem: “bizaco de caçador”, “lazarina”, “caiu no ôco do mundo”, “carrasco sertanejo”. Iderval não traduz o sertão pro português de cidade. Ele deixa o sertão falar por ele mesmo.A moral escondida:
O sertão ensina que todo mundo tem filhote pra alimentar. Onça, homem, cachorro. Quando você enxerga isso, a mão treme antes de puxar o gatilho.E o título não é à toa: “Pedro, o cachorro Leão e a onça pintada”. No final, os três viram iguais. Todos com medo, todos com filho, todos com direito à vida.Quer que eu compare esse causo com outros clássicos do gênero, tipo “A Festa do Bode” do Ariano Suassuna ou os causos do Rolando Boldrin? Iderval tá na mesma linhagem.
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