O CACHORRO, O TIGRE E O MACACO
Um pequeno e magrelo cachorro, faminto e aos pedaços, procura algo na floresta para matar a fome. Anda, perambula e nada encontra, quando já estava para se entregar ao fracasso, tropeça numa carcaça ressecada de um tigre, quase sem nenhum recheio, mesmo assim, põe-se a roer os últimos nacos que ainda recobriam os envelhecidos e ressecados ossos.
Nesta mesma floresta, próximo à velha carcaça, encontrava-se trepado num desidratado umbuzeiro, um encrenqueiro macaco a observar os passos e os movimentos do maltratado cão.
Ao saborear as migalhas da carcaça, o pequeno cachorro, de soslaio, nota o vulto de um ansioso tigre à procura de algo para saciar a fome. O cão de imediato e a espera do bote, enche os pulmões e em voz alta pronuncia:
"Que tigre gostoso termino de saborear, me falaram que existe outro nesta mesma floresta e só me contento quando pegá-lo e triturá-lo nos dentes, para saberem quem é rei desta área".
O Tigre recuou. Trêmulo e cabisbaixo saiu devagarinho para não importunar o valente cachorro. O Safado do Macaco, que ouvia a tudo, balançou a cabeça desaprovando a atitude do cachorro, correu até o tigre que se afastava silenciosamente da cena e lhe disse:
"Comadre Onça deixe de ser besta, aquilo foi bravata, o cachorro encontrou aquela velha carcaça já em fase de ressecamento, e estava era roendo para não morrer de fome, a senhora foi enganada pelo magrelo cão."
O Tigre pegou corda, acreditou no Macaco e deu meia volta para sacrificar o cachorro. O Macaco que queria vê o circo pegar fogo, acompanhou por cima os passos do faminto tigre.
O pequeno cão, que se encontrava deitado no tronco do umbuzeiro, mais uma vez sentiu e viu o Tigre se aproximar, não contou conversa. Numa atitude de argúcia, sabedoria e espírito de sobrevivência, levantou o tórax, equilibrou a cabeça, abriu os olhos, insuflou os pulmões na carga máxima, escangalhou os dentes e num tom seguro e de correção, abriu a bocarra e bradou em voz alta.
"Por onde anda aquele macaco safado, este sujeito que contratei para arranjar mais uma onça que não aparece, se não aparecer, farei dele a minha próxima refeição, triturarei nos dentes e nunca mais ele vai comer banana."
O velho e amedrontado Tigre ficou mais assombrado com o pequeno cão e tomou o caminho da floresta para nunca mais aparecer.
Iderval Reginaldo Tenório
São atitudes como esta, que o homem tem que tomar para enfrentar as dificuldades da vida. Muitos são os tigres e numerosos os macacos. Agora a inteligência é a principal arma do homem.
Esta Lenda é de domínio popular e foi reescrita nesta versão simples e descontraída por este mortal. Iderval Reginaldo Tenório
Belchior - Populus
www.youtube.com › watch
Share your videos with friends, family, and the world.
YouTube · Alfredo Pessoa · 2 de out. de 2010
Um comentário:
Essa é uma fábula clássica do folclore nordestino que o Iderval reescreveu. Ele mesmo fala: “Esta Lenda é de domínio popular e foi reescrita nesta versão simples e descontraída por este mortal”. É a versão sertaneja de “inteligência vence força”.A história em 2 minutos:Cena 1 - O cachorro e a carcaça
Um cachorro magrelo, faminto, acha uma carcaça ressecada de tigre. Não tem carne, mas ele roí o que resta pra não morrer.
No umbuzeiro em cima, um macaco encrenqueiro observa tudo.Cena 2 - A blefagem
O cachorro vê um tigre de verdade chegando. Sabe que se correr, morre.
Então enche o peito e grita alto:
“Que tigre gostoso terminei de saborear! Me falaram que tem outro nessa floresta e só fico contente quando trituro ele nos dentes pra saberem quem é o rei aqui.”
O tigre treme, acha que o cachorro come tigre de café da manhã. Sai de fininho.Cena 3 - O macaco trai
O macaco vê a cena, balança a cabeça e vai fofocar pro tigre:
“Comadre Onça, deixa de ser besta! Aquilo foi blefe. Ele tava roendo uma carcaça velha pra não morrer de fome.”
O tigre cai na conversa e volta pra matar o cachorro.Cena 4 - O segundo blefe
O cachorro vê o tigre voltando e faz a jogada final:
“Por onde anda aquele macaco safado que contratei pra arranjar mais uma onça? Se não aparecer, faço dele minha próxima refeição.”
O tigre pira. Acha que o cachorro já comeu um e agora quer outro. Vaza da floresta e nunca mais volta.A moral que o Iderval deixa:
“São atitudes como esta, que o homem tem que tomar para enfrentar as dificuldades da vida. Muitos são os tigres e numerosos os macacos. Agora a inteligência é a principal arma do homem.”Por que essa fábula combina tanto com o resto do que o Iderval escreve:O cachorro magrelo = o sertanejo pobreSem recurso, sem força, abandonado. Mas sobrevive com argúcia. É o Seu Joaquim, o Zezinho, o pai da roça. Não tem trator, tem facão e cabeça.O tigre = o poder, o sistema, o coroné, a fome, a secaForte, assustador, mas covarde quando vê que pode levar desvantagem. Recua diante de quem mostra coragem e estratégia.O macaco = o fofoqueiro, o oportunista, o que vive de intrigaNão produz nada, só vive pra ver “o circo pegar fogo”. Iderval não gosta desse tipo. Ele aparece em “O Homem do Sertão” como a Peixinha: consome, não constrói.A lição prática:
No sertão, e na vida, você não ganha do tigre na porrada. Ganha na cabeça.
Blefagem, timing e sangue frio. O cachorro não mentiu sobre ter força. Mentiu sobre o contexto, e isso salvou a pele dele.Iderval fecha citando Belchior: “Populus”. O povo.
Pra ele, a saída do povo não vem de cima. Vem da inteligência de quem tá no mato, com a barriga roncando, e ainda assim acha um jeito de virar o jogo.Quer que eu compare essa fábula com “Pedro, o cachorro Leão e a onça pintada”? Nos dois o homem vence quando percebe que a onça/tigre também tem medo e que a conversa resolve mais que a faca.
Postar um comentário