segunda-feira, 31 de março de 2025

OS HOMENS TAMBÉM SENTEM

             Nenhuma descrição de foto disponível.                                       UM SÍTIO COM GRANDE VARIEDADE DE ANIMAIS E FRUTIFERAS - MARIO PEGORARO

                 Galo grande na grama imagem de stock. Imagem de grande - 32798219

                               OS HOMENS TAMBÉM SENTEM

Nos meados dos anos 50, o Brasil ainda era uma nação rural, vivia-se da agricultura, da pecuária de subsistência e puramente da exportação de commodities. Foi perdendo esta característic depois de 60, sedimentando após a copa do mundo, na década de 70, e hoje, 2025, é uma nação urbana.

No decorrer desta transição, muitos hábitos rurais foram transplantadas e aplicadas  nas cidades em formação.

A procura dos direitos sociais como  saúde, educação, empregos e entretenimentos, atrelado aos  desejos dos pais, no setor educação, para os seus filhos, propiciou o êxodo rural, uma vez que se acreditava que só a educação poderia tirar o homem do campo do analfabetismo,  e a  sair do fosso do qual se encontrava, o esquecimento e o sofrimento na trabalhosa e desvalorizada agricultura.

É de bom alvitre entender, que esta prática ocorreu nos pequenos municípios, médios e nas grandes metrópoles, notadamente no Norte e Nordeste, como também nos Estados brasileiros responsáveis pelo agronegócio.

O mais comum era encontrar casas com criatórios de galinhas, patos, galinhas d'angola, porcos, bodes, carneiros, ovelhas, papagaios, cágados e pássaros engaiolados, além dos animais domésticos de origem nacional( pejorativamente chamados de Pé Duro, vira-lata), cães e gastos. Salvador não fugiu à regra, principalmente nos bairros periféricos, nos quais as casas eram construídas em terrenos devolutos e de grandes áreas, eram pequenas chácaras.

Naquela época, o ato de criar, apesar de cada animal ter um nome, não existia uma ligação familiar como nos tempos atuais(2025) mesmo escolhendo um dos membros da família para cuidar de tal animal.  Cada um tinha um tutor: O galo é de Maria, o porco baé de José, o carneiro de Chiquinho, a galinha Ximbica de Vicente e o bode de Toim, o importante era que cada animal tinha um dono responsável, mesmo sabendo que um dia iria virar comida. Cônscio deste desfecho, era comum o responsável apegar-se ao seu protegido.

Na minha cidade, em épocas de festas, um colega meu levava o seu galo "pinduquinha" para a casa da avó, da vizinha ou para a escola, para não virar assado no centro da mesa.

Ao assunto- Os homens também sentem

Numbairro suburbano da cidade de Salvador, um senhor tinha uma família de mais de 12 filhos, possuía muitos tipos de animais, cada um com o seu nome e um tutor.

 Estes animais eram as alegrias da família e no dia que entravam no cardápio, a tristeza do seu tutor. Tinha um galo de estimação, propriedade da quase caçula e o um carneiro de raça, propriedade do dono da casa, era o seu chamego. Não vendia, não emprestava e não alugava, inclusive dava banhos de quando em vez e usava uma tinta vermelho claro na sua lã, era um dos seus orgulhos. Quando um amigo chegava na sua casa, o dono chamava o seu carneiro  Colorildo e era assunto para o dia todo.

A casa não possuía muros, como era comum naquela época. As galinhas ficavam nos seus galinheiros de varas ou telas, os pássaros em grandes gaiolas, os porcos num chiqueiro bem distante da casa, os bodes e os carneiros eram amarrados num belo pé de manga que existia nos fundos, funcionava como um grande parque de diversão para toda a família.

Um belo dia de domingo, dia do banho, ao abrir a porta não encontrou o seu estimado carneiro, viu apenas  a corda. Caiu em depressão, botou os seus filhos para procurá-lo em toda a redondeza, não logrou sucesso, além do quadro inicial, ficou esquecido e agressivo por mais de uma semana, só recuperando a consciência um mês depois, falava para os amigos, que foi um dos maiores traumas de sua vida.

A quase caçula arranjou um noivo e inventou de se casar, os pais  e os irmãos concordaram. Veio o dia do casamento, todos foram à igreja e ao voltarem iriam saborear um festivo almoço. Mesa posta, toalha e guardanapos de linho brancos, pratos, talheres e copos nos seus lugares. No centro da mesa, numa bandeja de aço enfarofada e algumas azeitonas, um grande frango assado, mais de dois quilos, com duas grandes coxas, peitos estufados de tão gordo e um pescoço de mais de 20 centímetro, era um frangão mais de metro, pois comia do bom e do melhor no colo da tutora. A quase caçula com uma afiada faca e um garfo tridente ao iniciar o corte do animal, parou, pensou e em voz alta gritou e caiu no choro: " Não acredito que é o meu galo Girineudo", desmaiou no centro da sala e o almoço só teve o seu começo quando a noiva recuperou-se do trauma. 

A noiva não comeu o seu galo de estimação, o afeiçoamento a outro ser vivo, tem mostrado grandes mudanças nos paradigmas sociais.

O mais interessante é que o Galo Girineudo era valente para todos da casa, menos para a quase caçula, a noiva,  e o velho  dono do Carneiro Colorildo, o Girineudo era ajuizado.

Dizem que os homens não sentem.

Salvador, 31 de março de 2025

Iderval Reginaldo Tenório

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