sábado, 26 de março de 2022

O Incêndio de 1964 Relato do menino Zezinho

 Menino Buchudo - Publicações | Facebook

O Incêndio de 1964

Relato do menino Zezinho

 

A caatinga ardia em chamas, o proprietário   e  alguns trabalhadores roçavam as ressecadas moitas  de jiquiris,    canafistas e outros    arbustos do semi árido nordeste. 

Do outro lado dona  a sua esposa     rodeada por  mulheres e rapazolas  limpavam os aceiros contra lateral . Retiravam garranchos,  gravetos e  capins desidratados , uma vez que  a caatinga seca  tem a mesma combustão da bucha ensopada com gasolina, quase semelhante à queima da pólvora. 

As últimas chuvas datavam de anos.  Barreiros secos,  animais esquálidos e as asas brancas a procurarem outras plagas, apenas os pássaros mais resistentes voavam contracenando com as miragens que vibravam tangenciando o duro, vermelho e ressecado  solo  serrano. 

O verde encontrava-se cinza, o sol queimava a pele, a cabeça, o coração, a mente e a alma dos fortes homens do campo, era mais um período de seca,  sem água,  de fome e de sofrimentos.

Anuns,   carcarás, gaviões, teiús  e cascavéis rodeavam as ilhas verdes  ensombradas  pelos umbuzeiros, cajueiros, facheiros, xique-xiques e mandacarus  à   procura de preás, saguins, calangos, pássaros , besouros , formigas e cupins    para matar a fome.

As rajadas de ventos ,muitas vezes em redemoinhos, levavam de eito tudo que encontravam pela frente.  Penas, ciscos,  folhas, ninhos de pássaros,  restos de gafanhotos, argilas e estercos  flutuavam  de um lado para  outro  como se a velha Chapada do Araripe estivesse a caducar ou pagando os seus pecados.

Num visível processo de desertificação,  as lufadas dos ventos  e o mormaço invadiam as desprotegidas  capoeiras e consumiam sem piedade os últimos lampejos de vida.  Pássaros,   insetos rasteiros , insetos  alados e até mesmo os  resistentes répteis eram triturados pelo sol do meio dia.

O descampado da  vegetação xerófila , os cabeças de frades, os rabos de raposas e os mandacarus mirins, maltratados pelo escaldante calor,  transformavam a caatinga num cinza transparente, expondo ao sol ardente    os  animais  , os vegetais e os recursos naturais  modificando   o ecossistema.

O céu azul , sem nenhuma nuvem, propiciava a visibilidade do mais longínquo infinito.  O astro rei, como se estivesse a metros, consumia  com as suas  labaredas a ressecada e moribunda carcaça da velha Serra do Araripe.  

Zezinho viu, viveu , apagou fogo e sobreviveu.  A  mente de criança gravou  dantesca cena.  O fogaréu vermelho a cuspir fumaça, os estalos dos gravetos finos e secos em chamas, as faiscantes fuligens carregadas pelos ventos salpicavam a troposfera a espalhar o incendio para outras plagas.

Os homens com mulambos molhados no rosto a proteger as ofegantes narinas e os olhos tracomatosos, mulheres com panos e vassouras de galhos secos a varrerem as margens da estrada. Adolescentes correndo em desespero,  aos gritos de guerras e o Zezinho encravado no coração do furdunço. 

Foram momentos de medo, de choro , de insignificância,  de coragem e de reflexão . Foi mais um fato vivido e registrado na sua existência pueril. Mais uma lição da natureza e a certeza que o homem do campo, o homem sofrido do nordeste é forte , resistente e merece respeito.

O menino cresceu, lutou, estudou  e envelheceu, porém, jamais deixou que a criança agreste que existe dentro de si sucumbisse, desaparecesse. Entendeu que os segredos da vida só sabe  quem viveu, quem presenciou e sentiu.  Traz de lembranças algumas cicatrizes e dois pterígios , marcas registradas dos sertões pernambucanos.

 Zezinho fez e faz parte deste tenebroso  universo, ele viu, viveu e sobreviveu, o Zezinho é um sobrevivente, como disse o Euclides da Cunha , é antes de tudo, um forte.

Salvador, 18 de Março de 1986

Iderval Reginaldo Tenório

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